*Esse post estava pronto há duas semanas e por isso perdeu um pouco de sua atualidade. (Acabei viajando e nao tive como postá-lo.) A história se passou no dia 15 de abril, quando chovia demais na cidade.
A chuva que chegou a Salvador há poucas semanas não deu trégua. Coincidentemente, como apontei no último post, ela veio para combinar com meu humor, que, na última sexta-feira, não era dos melhores.
Se o clima aqui em terra estava ruim, lá no céu parecia que São Pedro havia organizado uma RAVE! Era tanto barulho, no melhor estilo “TUNT TUNTS”, e tantos clarões - que lembravam as luzes estroboscópicas de boate - que a escuridão da noite se abrandava.
O fato foi que choveu incessantemente por uma semana. Falta de energia e buracos nas ruas, além de alagamentos, foram comuns. Várias pessoas queriam processar a Prefeitura, a COELBA e se vacilar um ou outro ia querer acionar a Igreja por permitir que São Pedro nos castigasse tanto, afinal, o Senhor disse que não nos destruiria mais com água: quebra contratual caracterizada.
Após escutar toda espécie de lamento, resolvi tentar ignorar o aguaceiro, apesar dos 50cm de água na pista estarem sempre me alertando da sua presença e da iminência de destruição do meu carro.
Foi nesse clima que me dirigi ao Fórum. Antes de chegar lá, ouvi piadinhas de humor negro de alguns colegas, que diziam que já que tanta coisa desaba com a chuva, não seria nada mal se nosso querido Fórum fosse abaixo.
Para chegar ao meu destino, fora a água, o trânsito estava muito bom. As pessoas tendem a não sair em Salvador, a cidade de açúcar, quando chove. Até o estacionamento da OAB estava vazio.
A minha diligência daquele dia tinha um significado especial. Havíamos proposto uma ação na qual buscávamos o adimplemento de valores devidos ao nosso cliente. A sentença havia transitado em julgado. Em novembro do ano passado, quando fui diligenciar a execução, o processo havia desaparecido.
De novembro a dezembro não localizaram os autos e o recesso chegou (isso sem mencionar a malfadada greve na última semana de expediente forense, como relatado em “A greve, seu fim e a festa”).
No início desse ano, uma vez mais, ninguém achava o processo e ainda por cima não me davam a certidão. A juíza estava de férias e, com isso, eu não tinha com quem apelar.
Finalmente, nos últimos dias de janeiro, obtive a maldita certidão. Numa última tentativa, retornei à Vara no começo de fevereiro em busca do malfadado processo. Eis que a juíza finalmente havia retornado de férias.
O relato de minha conversa com a magistrada foi feito no post “Calos dos que calam”. E, como expus, a mesma indicou que eu propusesse uma restauração de autos.
E era exatamente essa demanda a minha diligência do dia. O processo já havia sido autuado e minha missão era fazer com que houvesse o despacho ordenando a citação do requerido.
Adentrei o cartório da Vara - que estava mais vazio do que caixa de bombons em casa de gordo. Não tinha uma alma para ser atendida. Do outro lado do balcão também não havia mais que dois servidores, em frente aos seus computadores.
A explicação era óbvia e eu não iria perder tempo para ouvir que ninguém havia chegado às 9h30 por causa da chuva.
Certamente, sequer haviam saído de casa.
“Bom dia, eu quero ver esse processo.” Disse entregando o andamento processual a um sujeito completamente agasalhado.
O rapaz olhou o andamento e respondeu.
“Esse processo acabou de ser autuado”.
“Eu sei, quero falar com a juíza para que ela dê o despacho ordenando a citação do réu. É uma restauração de autos e ela me garantiu que faria o processo andar rapidamente. Ela está aí?”
“Ih, doutor, ela tá de licença!”
A informação foi recebida por mim com um misto de indignação com incredulidade.
Como a pessoa tem férias de janeiro a fevereiro e tira licença em abril?
“E deixe-me adivinhar” respondi “não foi designado juiz substituto!”
“Não doutor, só quem tá despachando é o juiz da Vara seguinte, mas ele só aprecia pedidos liminares ou mandados de segurança... E com essa chuva, acho que ele ainda não deve ter chegado, mas você pode ir lá ver...”
E lá fui eu. Qual não foi minha surpresa ao ser informado na Vara que o juiz não só estava na casa, como também estava despachando processos.
Pedi para falar com o magistrado o que foi atendido prontamente.
“Bom dia, Excelência”
“Bom dia, doutor” Disse o juiz sem tirar os olhos do computador no qual preparava alguma decisão.
“Doutor, eu sei que só está se manifestando nos processos da outra Vara em questões de Mandado de Segurança ou pedidos liminares, mas esse caso aqui é um tanto problemático também...”
“Exponha.” Disse querendo que eu não rodeasse muito.
“É uma ação de restauração de autos, Excelência. A sentença já transitou em julgado. Quero restaurar para viabilizar a execução”.
“Então o que o senhor quer, de fato, é tomar as providências iniciais para uma execução”.
“É, pode-se dizer que sim.”
“Então isso não é urgente”.
“Mas, doutor,” disse “já estou buscando resolver esse processo desde novembro do ano passado!”.
“Na verdade não desse processo, do que desapareceu.”
“Sim, mas...”
“Jovem,” disse-me o senhor barbudo, tirando, finalmente, os olhos do computador e mirando-me até com uma certa paciência típica de professor “águas passadas não movem moinhos. Eu entendo sua situação, mas eu já tenho diversos processos da minha própria Vara e se for parar pra fazer os da outra que não sejam de extrema urgência as coisas aqui vão ficar muito caóticas”.
“Mas...” Ameacei protestar.
“Faça o seguinte,” interrompeu o magistrado “peça para que a escrivã da Vara anterior deixe o processo aqui, tentarei fazer o despacho o quanto antes, mas lhe adianto que não será minha prioridade. De qualquer forma, não acho que mesmo que eu despachasse agora, haveria algum servidor para fazer o mandado ou oficial para cumpri-lo”.
Não havia argumentos para contestar a voz da experiência.
Retornei à Vara anterior e pedi que deixassem o processo no cartório para que o juiz despachasse.
Tentei realizar outras diligências no Fórum, mas não obtive qualquer sucesso. Convenientemente, sempre o serventuário responsável por fazer o que eu precisava estava ausente.
Mereceu nota, nesse dia perdido, o diálogo entre um advogado, ainda mais jovem que eu, e uma escrivã que havia feito um alvará equivocadamente. O colega pediu que fosse refeito e a mesma exigiu que fosse feita uma petição nesse sentido para apreciação do juiz.
O rapaz ficou, naturalmente, indignado.
Outra serventuária, após a saída da anterior, explicou ao advogado resmungão que a sujeita estava daquele jeito, pois a pessoa que pegou o alvará a havia desacatado e por pouco não saiu presa! Quando o sujeito perguntou qual foi o desacato a senhora informou:
“Ele a chamou de mera servidora”.
E o que ela seria afinal?
O advogado argumentou que não deveria pagar o pato pelos erros de outrem. Além do mais apelou pro lado emocional:
“Guardar rancor faz mal... Águas passadas não movem moinhos”.
Não adiantou muito.
Concluí que, no Fórum, águas passadas só movem os moinhos, desde que não seja para beneficiar os advogados.