Após 37 dias de paralisação os servidores da justiça voltaram ao batente. O período de greve foi uma tristeza para nós, advogados. Naturalmente os processos não andaram e as únicas movimentações que aconteciam eram nos juizados, com algumas audiências ocorrendo, como a que narrei no meu último post.
Por falar nele, vale mencionar que para minha alegria o juiz já sentenciou, tendo julgado procedentes em parte os pedidos (apenas estipulou uma indenização menor que a requerida).
Com tanto tempo sem “ação” por assim dizer, naturalmente não havia muito que comentar neste diário. Pensei, então, em buscar informações sobre a greve dos servidores para ter certeza de que eles apenas não queriam trabalhar.
Depois de pouco tempo de pesquisa, vi que eu estava redondamente enganado. A greve era não só legítima como tinha um fundo moral muito forte. A bandidagem dentro do judiciário baiano é uma vergonha. Os apadrinhados de poderosos acabam recebendo bonificações absurdamente altas. O TJ gasta tubos de dinheiro para sustentar regalias de familiares de desembargadores, políticos e afins.
O CNJ vendo o desperdício de dinheiro mandou o TJBA “dar uma controlada” na situação e a Presidente do tribunal achou uma simples solução: tirar dinheiro de quem ganha menos.
Genial, não?
A greve acabou sem a vitória dos servidores que se viram obrigados a voltar à labuta depois da concessão de uma medida liminar que se deu através de uma manobra política mirabolante.
Assim, os grevistas perderam e com eles a população também. Informei-me com alguns colegas da pós-graduação e a intenção deles é voltar à ativa realizando a malfadada “operação tartaruga” que prejudica os juízes e desembargadores, que acabam não atingindo suas metas, mas afeta ainda mais os advogados e os cidadãos em geral.
Há, ainda, indicativo de que a greve voltará após o dia 30 desse mês, com novas desculpas para buscarem os mesmos objetivos.
A simpatia que tenho pela luta dos servidores contrasta com o histórico negativo das relações que mantenho com a maioria deles. É uma situação um tanto confusa. Só sei que, independente do resultado dessa briga quem perdeu mais nessa história foram os cidadãos.
(...)
Naquele primeiro dia de fim de greve eu tinha uma audiência. Às 8 horas da manhã. Eu ODEIO audiências às 8h. Meu cérebro ainda não está perfeitamente ligado. Mas o que posso fazer?
Cheguei ao juizado às 7h40. Encontrei a cliente e jogamos conversa fora por 20 minutos. Às 8 horas em ponto uma funcionária anunciou que o sistema estava fora do ar e que seriam distribuídas certidões de que naquele dia não ocorreriam audiências.
Não quiseram esperar nem 5 minutos para ver se o sistema voltaria.
Perguntei-me se o tal sistema estava realmente fora do ar.
Será que a greve acabou mesmo?
Com a certidão na mão, resolvi ir ao Fórum. No caminho ia passando em minha cabeça o que estava por vir...
Vamos à receita:
Dia 15 de junho, primeiro dia de trabalho na Justiça Estadual depois do fim da greve. Dia da estréia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010. Expediente forense até às 14h.
Resultado: CAOS.
O Fórum estava um inferno. Gente por todos os lados. Os prazos que se iniciaram antes da greve encerrar-se-iam naquele dia. Quem tinha recursos para protocolar ou embargos para distribuir precisava fazê-lo naquele dia. Naquele turno.
Quando entrei no setor de distribuição passavam das 8h37. Consegui pegar a senha 98!!!!!!!! Eu disse NOVENTA E OITO. O painel eletrônico anunciava que a última senha atendida era a 14.
Senti que a raiva já transparecia em meu semblante quando resolvi sair daquele lugar para aproveitar o tempo que demoraria a ser atendido fazendo algo de útil, como diligenciar processos nas varas cíveis.
Ao abrir a porta deparei-me com uma repórter da TV Aratu que teve a idéia de entrevistar, entre dezenas de advogados, aquele mais jovem que estava com cara de poucos amigos.
E assim foi. Naturalmente deixei transparecer minha indignação com aquela situação, o que obviamente foi bem explorado pela repórter.
Naquela hora eu não pensei em quem assistiria aquela matéria, nem tampouco que aquilo poderia ter maiores repercussões (e até agora não teve, com a exceção de uma servidora que falou ter me visto na TV reclamando de sua greve e fazendo cara de poucos amigos, não tive grandes problemas. Ainda.).
Mas o fato é que naquele dia até consegui realizar as tarefas que me dispus a fazer. Claro que em algumas Varas os servidores presentes diziam que não podiam realizar uma ou outra tarefa sobre a conveniente alegação de que quem deveria fazer aquilo era um servidor que só estaria lá pela tarde, e como não haveria expediente pela tarde...
Mas quem se importa com isso tudo?
O Brasil estreou e venceu. A única reportagem relevante foi a coletiva do treinador da seleção.
Ninguém está se importando com os projetos de Lei sendo votados no Congresso, quiçá com uma reles entrevista de um jovem advogado que fala sobre a greve.
Aliás, alguém mais, além dos servidores, está lembrado do motivo da greve?
Qual foi mesmo?
Tanto faz.
Vamos, lá, Brasil! Rumo ao hexa!
quinta-feira, 17 de junho de 2010
A GREVE (2) SEU FIM (?) E A COLETIVA
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