Definitivamente minhas experiências com o Projudi e na Justiça Estadual não são algo estimulante para um advogado em início de carreira.
Preciso explorar mais possibilidades. Vamos ver o que há fora do Fórum.
Uma oportunidade surgiu. Algo simples. Apenas precisava realizar um registro na matrícula de um imóvel. O juiz, inclusive já havia mandado um ofício à Oficial Titular para que ela procedesse a alteração necessária.
Mamata.
Eis que visualizo o primeiro porém. Na verdade o processo é de outra cidade. Precisarei fazer uma pequena viagem. Meu chefe aconselhou que eu levasse o boy do escritório comigo, pois ele já fez essa viagem e já sabe lidar com as pessoas de cartórios.
Tranqüilo. Piece of cake.
No dia seguinte, acordei cedo, busquei o boy no escritório e pegamos a estrada. Pouco mais de uma hora depois, já estávamos no cartório.
“Bom dia! Como vai a senhora?” – Esse sou eu ainda na fase simpática.
“Bem.”
Isso que é resposta animadora.
“Dona Ciclana, a oficial titular, está aqui? Preciso falar com ela.”
“Ela está ocupada.”
“É que eu preciso que seja feita uma averbação na matrícula de um imóvel, houve até um envio de ofício judicial para cá...”
“Anh-rã.”
Diante desse dialogo animado, resolvi ignorar a pessoa com quem estava falando e ir atravessando o corredor para chegar à sala onde se encontrava Dona Ciclana.
“EI! MENINO, VOCÊ TÁ INDO PRA ONDE???”
Respire fundo. Você consegue.
“Estou indo falar com Dona Ciclana”
“Eu já disse que ela está ocupada.” – Fala a mulher, já voltando ao seu tom de indiferença, uma vez que já tinha logrado êxito em interromper meu trajeto.
“Minha senhora, veja bem – como dizem na propaganda ‘um veja bem’ – isso aqui tem uma certa urgência. É preciso que haja esse registro para que o dono possa vender o imóvel!”
“Ah, tem urgência, é?” – E a voz da mulher pareceu se animar.
“Com certeza!” – Respondi, ingenuamente.
“Porque o senhor não falou antes? Vamos ver o que posso fazer por você.” – falou enquanto pegava o papel que eu tinha em mãos.
Aleluia, finalmente ela entendeu. Será que o cartório de imóveis funcionará melhor que o Projudi e a Justiça Estadual?
Nesse momento, o boy, que até então estava apenas assistindo o debate, se aproxima de mim e murmura:
“Rapaz, você tá ligado porque ela se animou, né?”
“Não, porque foi?”
“Ela tá achando que vai ter taxa de urgência.”
“Taxa de urgência? Que raio é isso?” – Me espanto com minha ignorância.
“É o valor que você tem que pagar pra ela tomar as providências.”
“Oxe, tem que pagar é? E porque não trouxemos a guia para pagamento?”
Santa ingenuidade.
“Não, rapaz, você não tá entendendo... Ela quer o por fora...”
“COMO É QUE É????”
Coincidência ou não, após meu urro no meio do cartório, me volta a fulana com um livro onde está a matrícula do imóvel.
“Aqui, doutor, – reparem que em menos de 5min de conversa eu evolui de ‘menino’ para ‘senhor’ e agora já me tornei ‘doutor’ – é esse aqui o seu caso, não é?”
“É.” – A essa altura, segundo relatos posteriores do boy, eu já estava vermelho, e com cara de quem estava prestes a quebrar alguma coisa.
“Então, doutor, você sabe, né? Pra fazer essas alterações demoram um certo tempo...”
“É, eu sei. Vocês tem um prazo.”
“Pois é, mas o senhor disse que é urgente, né?”
“Pois é.”
“Então... Se o senhor quiser, eu posso aprontar isso aqui... Dou um jeitinho com a Oficial, e hoje ainda o senhor tá com isso na mão.”
Agora já estava tudo claro. No ínterim dessa conversa, como quem está fazendo suas atividades rotineiras, a fulana abriu uma gaveta e deixou expostos alguns micos. Na verdade, muitos micos. Acho que juntos eles poderiam formar algumas garoupas. Um verdadeiro cardume. E vejam que isso era numa terça-feira.
Imaginem quanto ela não faz em uma semana.
Respire fundo, você consegue.
“Minha senhora, como que eu faço pra ter isso hoje?”
“Veja bem, doutor – segundo ‘veja bem’ da conversa – você sabe, né? Não temos obrigação de fazer isso imediatamente...”
Ah, se eu estivesse com meu taco de beisebol...
“É. Não têm. Ok. Volto ao final do prazo que vocês têm. Creio que até lá estará, pronto, né?”
A mulher recuou. Pareceu assustada. Foi um golpe inesperado.
“Estará, sim.”
Engraçado como as respostas curtas e secas voltaram rapidamente.
“Ótimo, porque se não estiver, terei que tomar outras providências, afinal, isso é uma ordem direta do juiz... A senhora e a oficial sabem... Descumprir ordem judicial é crime.”
“Oxe, menino – eis que voltei a ser ‘menino’ – sabemos, sim.”
“Ok. Voltaremos a nos ver em breve, então.”
Saí do cartório com a cabeça fervendo. Quando pisamos fora do prédio o boy me abordou.
“Rapaz, eu pensei que você ia bater na mulher lá dentro!”
“E pareceu isso, foi?”
“Se pareceu? A mulher até se afastou!”
“Foi bom, ela quase me enganou com a boa vontade repentina.”
“É, foi porque ela achou que ia ganhar uma taxa de urgência.”
“Por mais que o cliente precise desse dinheiro, eu não estou disposto a pagar o preço pela sua urgência”
E espero nunca estar.
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"taxa de urgência" o caralho. Nego acha q ta fazendo favor, ne? Impressionante... queria salário melhor, estudasse + e arranjasse 1 emprego melhor, oras.
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Vixe, quanta gente rebelde!
ResponderExcluirEu me orgulho de vc, Peros! Não pago e nunca pagarei. Um dia meu chefe disse que talvez um oficial de justiça me pedisse dinheiro. Eu fiquei brother do cara e ele até pagou meu estacionamento. Enfim, acho que o dinheiro só alimenta o vício. Há outros jeitos de se conseguir o que se quer. Sua resposta foi a melhor de todas.
ResponderExcluirSim, sim, mas não precisa querer bater nas pessoas com tacos e afins, muito menos alimentar a postura grosseira desse tipo de gente. Nessas horas, é melhor fazer como Larissa, ser cortês e fazer amizade... Resolve muito mais!!!
ResponderExcluirGrande Cronista Legal!
ResponderExcluirA sua leitura nos remete a nossa vivencia diária no mundo jurídico.
Sem muitos floreios esta experiência nos faz lembrar uma lei que não está em nenhum auto e em nenhuma parte da legislação nacional mas, que vem sendo praticada a anos no nosso país, Aposto ainda que esta é conhecida por alguns que aqui escreve mas se não for tomarão conhecimento de imediato que é a Lei de Gerson.
ResponderExcluirA expressão originou-se em uma propaganda, de 1976, para os cigarros Vila Rica, na qual o meia armador Gérson da Seleção Brasileira de Futebol era o protagonista.
A propaganda dizia que esta marca de cigarro era vantajosa por ser melhor e mais barata que as outras, e Gérson dizia no final:
Citação
«Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também.»
(Gérson)
Mais tarde, o jogador anunciou o arrependimento de ter associado sua imagem ao reclame, visto que qualquer comportamento pouco ético foi sendo aliado ao seu nome nas expressões Síndrome de Gérson ou Lei de Gérson.
Associa-se a valorização e a mitificação desta "lei" ao conceito de malandragem, do uso de pistolões em português brasileiro ou de cunhas em português europeu.
Gostaria de elogiar a postura dos nobres advogados e amigos que apioam a mudança desta prática absurda, e de fato se cada um fizer sua parte um dia quem sabe chegaremos a um Brasil melhor.
Agora fica um questionamento será que esta senhora é do tempo desta propaganda ? ou ela simplesmente fuma cigarros Vila Rica ?
Ps: Não estou assinando pois não estou com paciência para fazer uma conta no google.
Caro anônimo,
ResponderExcluirConcordo plenamente. Essa, infelizmente, é uma das leis mais efetivas no nosso país. Mas creio que isso será combatido e as coisas tendem a melhorar, mesmo pq quero crer que as pessoas que venham a ocupar funçoes públicas no futuro tenham uma melhor mentalidade q essa senhora.
Outra lei bastante vislumbrada por essas bandas - que merecerá um post em breve - é a Lei de Murphy. Como advogados, precisamos estar sempre precavidos, pois, na nossa Justiça, se algo tem a chance de dar errado no desenrolar do processo, com certeza, dará!
Lari,
Só vc pra fazer o oficial pagar seu estacionamento! hahahahahah
Às vezes n vale apenas estragar as coisas.....ainda mais um belo taco de beisebol....ruma uma bigorna mesmo que já resolve.
ResponderExcluirParabéns pela atitude. Realmente me irrita essa "taxa de urgência". E como usam esse pleonasmo na cara de pau.
ResponderExcluirPleonasmo, não, eufemismo.
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