Estou fazendo terapia. Tipo daquele filme “Tratamento de Choque”. As pessoas dizem que ando muito nervoso. Não sei o porquê, sou tão contido... E olhe que eles concluíram isso sem que eu externe o que eu realmente penso, porque se eu externasse, no mínimo teríamos menos um servidor público no mundo, pois uma teria sido morta à base de rebatidas de taco de beisebol...
Pois bem, meu terapeuta indicou que eu tentasse levar meu dia-a-dia normalmente. Que quando ficasse nervoso ou indignado, respirasse fundo, procurasse pensar em coisas boas e seguisse nas minhas atividades.
É porque não é ele que tem que lidar com um monte de gente que trabalha de má vontade e acha que só de falar com você está lhe prestando um enorme favor...
Muito bem. Retornando às minhas regulares atividades, eis que tenho pendente algumas questões no Fórum. Há um novo processo que precisa ser resolvido rapidamente.
Não vou ao Fórum apenas para distribuir o processo. Um estagiário do escritório irá até lá para realizar algumas diligências. Aproveito e peço que ele realize a distribuição e faça com que o processo seja de logo encaminhado à vara sorteada, tendo em vista a sua urgência.
Tomei antipatia por esta palavra...
Pois bem. No dia seguinte, o estagiário me relata como decorreram suas atividades e me informa que o processo chegou à vara e já estava para ser autuado, apenas não havia sido porque “a pessoa que faz autuação não estava lá”, segundo lhe informou um serventuário.
Deve ser uma pessoa muito importante. Autuar é um trabalho muito difícil...
Calma! Respire. O estagiário não tem culpa disso.
“Ok, tire o andamento desses processos que você não conseguiu resolver – ele relatou alguns casos em que encontrou dificuldades – e me passe o número desse processo que ainda não foi autuado. Vou lá eu mesmo.”
Nada conseguiria me tirar do sério naquele dia. Eu estava focado em ser uma pessoa mais calma. Nem o insuportável trânsito em uma ladeira pela qual tenho que passar para chegar ao Fórum me irritou. Mesmo demorando quase uma hora para conseguir uma vaga para estacionar, me mantive tranqüilo. O CD de Sinatra que achei no case que tinha no carro ajudou bastante.
Meu terapeuta ficaria orgulhoso se estivesse aqui!
Depois de todos esses percalços, finalmente cheguei ao Fórum e me dirigi de imediato à Vara do processo que havia sido distribuído no dia anterior.
Creio que estava com sorte, só havia mais dois advogados no balcão e ambos já estavam sendo atendidos e, para melhorar, aparentemente a servidora que fazia o atendimento estava disponível.
“Boa tarde!”
“Boa...”
Entrego o andamento para a funcionária.
“Esse processo foi distribuído ontem e como tem uma certa urgência (controle-se!) eu gostaria que ficasse logo concluso para que o juiz o aprecie.”
“Ih, doutor, esse processo ainda não foi nem autuado!”
“Eu imaginava que isso podia ter acontecido, ontem quando chegou à Vara a pessoa responsável pela autuação não estava... Mas agora ela está?”
“Tá sim. Fulanaaaaa! Tem um advogado aqui pra falar com você!”
Fulana, uma senhora baixinha com cara de invocada, levantou-se de uma cadeira ao fundo do cartório. Veio andando lentamente. Olhou-me de cima a baixo. Por fim, fitou-me sobre seus óculos velhos e soltou:
“Qual o caso?”
Ai, ai...
“É que o processo ainda não foi autuado e tem uma...”
Nem termino a frase e fulana já emenda:
“Ah, doutor, não dá pra autuar, não! Estamos sem material.”
“Como assim sem material?” Eu juro que não entendi o que isso significava.
“Sem material, ora. Sem capa, bailarina, grampo. Não posso autuar processo sem isso.”
Todo um dia de autocontrole prestes a ir pelo ralo...
“Minha senhora, como não tem material? O que vocês estão fazendo com os processos que chegam?”
“Doutor, – disse seriamente – Eu não posso fazer nada. Já pedi os materiais, mas eles não chegaram.” E começou o caminho de volta à sua mesa.
Os advogados que estavam sendo atendidos tiveram reações diferentes. Uma senhora que manuseava um antigo processo, ouvindo a conversa que tive, começou a se chacoalhar como se estivesse indignada. O outro, jovem como eu, não se deu o trabalho de conter o riso de canto de boca.
Tá achando graça da minha miséria, não é? O mundo dá voltas...
Praguejando dentro de minha cabeça, segui para as outras varas em que tinha diligências. Buscando manter-me cortês, tentei esquecer o que havia se passado e conversei normalmente com os outros serventuários.
Incrível como meu esforço deu certo. Apesar da primeira experiência ruim, as demais diligências saíram conforme o planejado. Consegui terminar tudo antes do esperado. Mais surpreendente ainda é que no último cartório eu já estava conversando animadamente sobre futebol com o escrivão da Vara.
Foi quando tive uma idéia.
“Ô, meu amigo, você me consegue uma capa de processo, uma bailarina e os materiais necessários para autuar um processo?”
“Oxe, pra que você precisa disso?”
“É que estou com um processo em uma vara que ainda não foi autuado por falta de material!”
“É sério isso?!”
“É.”
Minha resposta foi seguida de uma gargalhada estrondosa do escrivão que, na seqüência repetiu a história para quase todos os serventuários:
“Já soube da nova? Agora o pessoal não autua processo por falta de material! Hahaha”
Eu já estava mais relaxado depois do dia relativamente bom que tive e até me peguei rindo da situação.
Realmente, onde vamos parar?
“Tome, doutor – disse ao me entregar os materiais – vá lá autuar seu processo!”
“Obrigado!”
E lá fui eu de espírito renovado voltar à primeira missão do dia. Enfim, as coisas iam entrar nos eixos: um dia de sucesso!
“Boa tarde.”
“Você de novo, doutor? Fulanaaaaaaaaa, aquele advogado voltou...”
Tive a leve impressão de que falaram da minha indignação com a falta de materiais durante minha ausência.
A fulana, sem nem se levantar, brada do fundo da sala:
“Ainda não chegou o material, não, doutor.”
Então, em triunfo, eu dei minha resposta:
“Tudo bem, eu trouxe o material para que você autue o meu processo!”
Espantada, fulana levantou e veio até o balcão. Pegou o material de minhas mãos. Olhou-me e pôde constatar toda a minha satisfação. Fez cara feia, mas sentou e começou a autuar o processo.
Ouvi um murmuro bem baixinho.
“Egoísta miserável!”
“Disse alguma coisa, Dona Fulana?”
“Não, doutor, mas me diga, porque só trouxe material para uma autuação?”
“Como?”
“Você só trouxe material para que eu autuasse o seu processo, tem muitos outros aqui!”
Fiquei tão incrédulo com a petulância de Dona Fulana que não consegui elaborar resposta e balbuciei um “Hum...”.
“Sim, e afinal, porque não trouxe mais?”
Vou trocar meu psicólogo por um taco de beisebol.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
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"Seja menos egoísta, Peroba" [1]
ResponderExcluirAHuAHUAHuhUHAUhuaHUAh! Sério, essa foi a storia do seu blog q eu + ri até agora! Mas troque a terapeuta por 1 taco de beisebol e arrume tb 1 bom advogado penalista, pq em breve vc vai precisar... aheuaheuhuehuehuheua
=*
Huahuahua! É verdade, Kika!
ResponderExcluirNessas varas acontecem coisas que Deus duvida, tem horas que, mesmo sendo contra violência, dá vontade de matar um!
kkkkkkkkk...
ResponderExcluirMas vem cá, vocês tão reclamando de quê? Vida fácil, a dos advogados... (toda vez meu irmão tenta me matar quando digo isso, hihihi)
bjs da Siquara.
Resposta à serventuária: "Porque não existem outros advogados pedindo urgência aqui, de modo que a chegada tardia do material não vai afetá-los".
ResponderExcluirPeros, não sabia que vc tinha problemas com nervosismo. Achava que ele era só uma característica sua. Bom, quando eu estou no cartório e dá algum problema, eu penso em como o meu trabalho seria fácil se fosse só convencer as pessoas a fazer o que eu tô pedindo. Eu dou graças a Deus quando tenho que ir ao fórum, porque lá eu não preciso ficar raciocinando rápido e que nem louca na frente do computador a ponto de esquecer de almoçar. Também não fico nervosa como quando estou em audiência, porque estou sendo cobrada. É um passeio. E se a coisa der MUITO errado, eu penso em como o meu trabalho é fácil. Eu não preciso carregar pedras, nem me esforçar demais fisicamente. Também não preciso mais sair correndo desesperada de um lugar para o outro com estágio e faculdade. O que eu preciso é conversar com as pessoas. Se demorarem pra me atender, melhor: tenho mais tempo pra estudar (eu levo coisas da faculdade ou dos outros trabalhos pra fazer enquanto espero ser atendida. é uma dica).
Espero que com essas dicas vc fique mais zen. :D
P.S.: O carro tb é um bom lugar de estudos em engarrafamentos. Tb é um lugar onde vc pode dançar do jeito que quiser e cantar alto, que ninguém vai ver. É um lugar onde vc pode se sentir mais livre e engarrafamentos são ótimos pra isso. Eu já troquei de roupa algumas vezes no carro, e tb é engraçado pra caramba. :D
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirLari, realmente, vc é louca!!
Claro q eu me estresso com esses sacanas! Mas muito da história é floreio! O personagem não sou eu, é baseado em mim, mas eu, por exemplo, nao faço terapia, embora tenha vontade de bater nas pessoas de vez em qdo!
hehehheheheheh
bjos