Nada como um recesso para recarregar as baterias. Uma praia, uma cerveja, uma moqueca – como bom baiano. Férias merecidas para quem teve que agüentar todo tipo de maluquice da Justiça baiana.
Mas tudo que é bom dura pouco e meu recesso, diferentemente do da Justiça, terminou no dia 04 de janeiro, uma segunda-feira. O da Justiça, por outro lado, terminou no dia 07, uma quinta-feira. Naturalmente as coisas só entrarão nos eixos na segunda, 11. Na quinta e na sexta o povo finge que trabalha, nós, advogados, cumprimos nossos prazos, mas obviamente nada vai andar. Aliás, não tive a oportunidade de encontrar qualquer juiz nesses dois dias.
A grande novidade desse início de ano, é que, até pela grande quantidade de sol que tomei, estou mais devagar, mais light, nem to precisando de maracujina!
Fazendo tudo com muita calma, bichinho.
E foi nesse espírito que eu fui com uma cliente abordar um sujeito que invadiu seu terreno. Antes de falar da visita, contudo, convém explicar melhor a situação:
Numa audiência que fiz dezembro passado - a do post “A greve, seu fim e a festa” – havíamos chegado a um acordo com o demandado, que era o antigo caseiro da minha cliente e após ser demitido, continuou vivendo na área. Como era um senhor de avançada idade, e em homenagem aos serviços prestados, minha cliente permitiu que o sujeito ocupasse o local. Acontece que surgiu a possibilidade de venda do terreno e a sua presença impedia o negócio de se concretizar.
Propus, por conseguinte, uma reintegração de posse. Na audiência propusemos um acordo: cederíamos ao antigo caseiro uma faixa na extremidade do terreno para que ele construísse sua casa lá e assim pudéssemos vender o resto do terreno.
Todo mundo vai ficar feliz!
Acontece que após demonstrar felicidade ao ouvir a proposta, o réu/caseiro nos informou que:
“Tem um probleminha só! No canto do terreno um cara invadiu e montou um boteco!”
“FOI CULPA SUA!” gritou a cliente “Você se diz caseiro e deixa um cara invadir o terreno!”
Antes mesmo de eu tentar acalmar a cliente o juiz lhe deu um olhar de censura que a fez calar. O réu continuou, agora falando para o juiz.
“Mas, doutor, o que eu podia fazer?? O sujeito é um negão rastafári enorme!”
Pra minha sorte, nem o juiz se conteve. Gargalhou com o tom de medo do caseiro e junto com ele caímos na risada eu e o digitador.
Para resolver o problema o juiz sugeriu que cercássemos o boteco onde o sujeito estava, que ocupava uma área relativamente pequena do terreno e fizéssemos a doação para o réu da área lateral restante.
Todos concordaram.
“Mas e como vai ficar o Rásta??” Indagou o caseiro.
“O Rásta fica lá mesmo. A parte que ele ocupa não impedirá a venda.” Eu disse.
“Mas e se ele disser que a área que vocês estão me dando é dele também?”
“Ele não tem porque dizer isso. Mas nós vamos lá para evitar qualquer confusão!”
E assim foi. Depois do recesso – pois essa audiência já foi na última semana de expediente forense – fomos eu, minha cliente e seu filho até o terreno para falar com o tal Rásta.
Como eu não sabia chegar ao local fomos todos em um só carro, dirigido pelo filho da minha cliente.
O tal do terreno ficava tão longe que se me vendassem e deixassem nos arredores do lugar eu acharia que havia sido levado para outra cidade.
Ao lado de um ponto de ônibus situado à frente de um enorme terreno estava o boteco onde se encontrava o tal rastafári.
“Bom dia, Rásta – é como o sujeito é chamado” falei.
“Bom dia.”
Assim começou um dos diálogos mais tranqüilos que pude imaginar. O sujeito não causou nenhum problema e ficou até satisfeito em saber que o caseiro iria morar ao seu lado.
Missão cumprida.
De terno e gravata sob o sol de meio-dia de Salvador não via a hora de voltar ao escritório para pegar meu carro e ir almoçar.
Mas antes meu chefe tinha me incumbido de falar sobre os honorários com a cliente.
Ele deveria ter feito isso antes, afinal foi ele quem a trouxe ao escritório. Além disso, o trabalho já havia sido feito e a praxe é ter o contrato de honorários firmado antes de prestar o serviço.
Acontece que a cliente era mãe de um grande amigo dele e ele preferiu deixar pra falar disso depois.
Ou melhor, preferiu que EU falasse disso depois.
Antes que eu pudesse puxar o assunto, contudo, a cliente me convidou para entrar no terreno, onde ela, o filho e o caseiro começaram a colher frutos dos mais diversos tipos: mangas, carambolas, jambos... Uma verdadeira fartura.
Todos se serviram e ao final ganhei um saco cheio de frutas.
Espero que não sejam os honorários.
Quando estávamos voltando para o carro, o filho da cliente falou:
“Não se preocupe com os honorários, eu já combinei tudo com Mamute!”
Um silêncio se estabeleceu no automóvel.
O que raios aquilo queria dizer?
Percebendo minha falta de entendimento, o sujeito explicou, envergonhado, que Mamute era o apelido do meu chefe desde os tempos do colégio!
(...)
Um taxi até aquele terreno deveria dar uns 70 reais no débito.
A quantidade de frutas que eu comi e levei na sacola uns 40 reais no crédito.
Descobrir que o apelido de meu chefe era "Mamute", não tem preço!
Isso que é honorário!
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AAAAAAAAAAAAAUHAUHAUHAUHUAHUHAUHAUHUAHUAHUHAUHAUHAHAUHAHUAHUAHUHUAHUAHUAHUAUHAUHAHUUHAUHAUHAUHAUHAUAUHAHUAUHAUHUHAAUHUHAUHAUH!!!!!!!!
ResponderExcluirAlém da crise de riso pelo "Mamute", eu só tenho 1 comentário a fazer: CARA, 40 reais de fruta dá pra montar 1 mesa de roska pra 1 festa pra 100 pessoas. COMO ASSIM vc comeu tanta fruta? xD
But then again... MAMUTE hauhahuahuahuAHuhaAHUAHHAuhaUAHAUHAHUAHHAHUAUHUHAUHAUHUHAUHHUHUAUHAHUAHUAHUHUAHUAHUAHUHUAHU!!!!
Kika é empreendedora, rapaz! Vc poderia converter as frutas em honorários mesmo! Vamos fazer roskas!!! E ganhar dindin nas formaturas!! Os advogados estão precisando fazer uns bicos pra complementar a renda! :P
ResponderExcluirQuando ganhar frutas de novo, me avisa que eu vou com ela!
É "nóis", Dri! hauhauhauhuahuhau!
ResponderExcluirCombinado!!! :P
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