Na terça-feira anterior ao carnaval distribuí uma ação no Fórum. Não era nada muito urgente, mas o cliente estava ansioso e eu queria agilizar as coisas, por isso fiz com que o processo fosse imediatamente enviado à Vara sorteada.
Cheguei ao cartório da Vara e me dirigi à funcionária que estava sentada próxima ao balcão. Era uma mulher jovem, até bonita para os padrões dos servidores do Fórum.
“Bom dia!” Disse feliz (afinal, estávamos às vésperas do carnaval).
“Bom dia” Respondeu automaticamente.
“Chegou aqui um processo que acabou de ser distribuído... Eu queria que ele fosse autuado para que seja expedido o mandado citatório”
“Olhe, doutor, na verdade quem faz isso é Fulana, mas ela só fará isso na volta do carnaval!”.
“Poxa, mas não tem ninguém que possa fazer isso no lugar dela?” insisti.
“As coisas aqui já tão em ritmo de carnaval, pode reparar que não tem quase ninguém por aqui... Eu to aqui providenciando as publicações... Volte depois do carnaval que a gente resolve!” Falou parecendo ser sincera.
Bom, não é nada urgente, não há porque insistir e me indispor.
“Ok. Volto aqui depois do carnaval e procuro Fulana!”
“Combinado” Respondeu a simpática moça.
(...)
Aproveitei o carnaval, como já relatei. Na quinta-feira iria fazer minha malfadada viagem ao interior de Alagoas, contudo, pela manhã, achei tempo para ir ao Fórum diligenciar a autuação do processo.
“Bom dia.” Falei sem muita animação devido à iminente viagem que estava por vir.
“Bom dia” Respondeu a mesma simpática moça com quem conversei na semana anterior.
“Vim ver a autuação daquele processo...” Falei tentando lembrá-la da nossa conversa.
“Ah, sim... Pô, doutor, mas Fulana só vai fazer isso a partir de segunda-feira!”
“Poxa, mas não era depois do carnaval?” Respondi já em tom de cobrança.
“Era, mas acontece que as coisas estão ainda em ritmo de carnaval... O pessoal ainda nem começou a trabalhar direito” (eram 8h40 da manhã).
Eu tinha outras diligências para fazer naquela manhã e já estava bastante irritado com a viagem que faria. Resolvi não perder tempo buscando alguém que quisesse trabalhar naquela maldita Vara.
“Certo, então eu volto aqui na segunda e procuro por Fulana. Devo vir que horas?”
“Ela irá fazer as autuações às 14h”.
(...)
Segunda-feira. Retornei ao Fórum. Cheguei à Vara por volta das 15h20. Dessa vez era um senhor que fazia o atendimento do balcão.
“Boa tarde.” cumprimentei.
“Boa!” respondeu simpaticamente.
“Eu preciso falar com Fulana, por favor!” Disse, referindo-me à pessoa que faria a autuação do meu processo.
“Um minutinho que vou chamá-la, ela está lá dentro.” Falou apontado para os arquivos.
Sentei e comecei a ler alguns andamentos de processos que iria diligenciar naquela tarde. Estava estranhamente feliz de voltar a um Fórum urbano, no qual pude chegar sem fazer rally.
Mas alegria de advogado baiano dura pouco.
“Bom dia, está me procurando?”
A voz era familiar, mas o impacto nos meus ouvidos era tamaho que eu tentei negar a verdade. Levantei e encarei minha interlocutora.
“Você é Fulana?” Perguntei à mulher com quem já havia falado duas vezes sobre o processo que iria diligenciar.
“Sim.” Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Talvez devido ao meu "programa de índio" na semana passada, nem tentei respirar fundo e fui falando antes de pensar qualquer coisa.
“Mas você não me disse semana passada e retrasada que só quem poderia resolver meu problema era outra pessoa?” Disse em tom baixo, mas completamente enraivecido o que foi perceptível para uma advogada de mais idade, que se afastou de mim enquanto eu falava e gesticulava.
“Não. Na verdade eu disse que quem resolveria seu problema em outro dia era Fulana, mas eu nunca disse que eu não era Fulana.”
Ah, se eu tivesse com meu taco de beisebol...
“A senhora não tem vergonha, não? Tá me achando com cara de palhaço?” Falei baixo, tentando me conter, enquanto me esforçava inumanamente para não esmurrar o balcão ou a própria Fulana.
“O senhor está nervoso...”
“É claro que estou nervoso! Como você espera que eu fique diante de um negócio desses?”
“Olhe senhor, eu te disse que viesse às 14h... Inclusive, já são 15h40... Eu já autuei os processos que iria autuar hoje. Se quiser, deixe o número do seu processo aí que eu o autuo amanhã!”
“Como é que é?” Respondi incrédulo.
“É isso. Já não estou mais autuando hoje. Quer deixar o número?”.
O ódio era tamanho que eu me via realizando o “home run dos meus sonhos” ali mesmo. Ela merecia.
Que tipo de vagabundo fala de si mesmo em terceira pessoa para se livrar de trabalho?
“Eu quero falar com o juiz. Ele está?”
“Não, ele veio pela manhã...” Disse Fulana com cara de vitória.
“E o escrivão?”
“Está de licença... só volta semana que vem...” Disse ainda mais feliz ao ver que minhas opções estavam acabando.
“A essa altura a senhora já sabe o número do meu processo. E eu vou voltar aqui. Esteja certa.”
“Eu tenho cara de advinha pra saber o número do processo, por acaso?” Respondeu em tom de desdém.
“Prefiro não dizer as caras que eu acho que as pessoas têm... Mas a sua certamente não é de advinha.” Resmunguei.
“Como é?” Começou a se inflamar.
“Olhe, eu vou voltar aqui amanhã pela manhã e só saio depois que falar com o juiz. Espero que o processo esteja autuado. Se não estiver, espero que pelo menos ele não suma.”
“O que o senhor está querendo dizer?”
“Estou querendo dizer o que estou dizendo. Eu digo o que eu quero. Não invento terceira pessoa pra falar por mim.” Disse enquanto me dirigia à porta da Vara.
Fulana ainda falava alguma coisa enquanto eu saia, mas eu não prestava mais atenção. A raiva era tanta que sentia minha cabeça quente. Certamente eu estava vermelho de ódio.
Enquanto me dirigia ao elevador me perguntava o que era pior: viajar para onde o vento faz a curva e ir ao Fórum que fica no encontro do NADA com o LUGAR NENHUM ou vir trabalhar em minha cidade e ter que lidar com os distúrbios de personalidade dos servidores.
Não encontrei uma resposta.
Mas o fato é que, do jeito que a coisa vai, quem vai acabar com algum distúrbio de personalidade serei eu.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
PROGRAMA DE ÍNDIO
Pouco antes do carnaval, meu chefe havia me passado um caso de uma empresa cujos sócios são seus amigos. Ela havia sido acionada por uma senhora numa cidade do interior de Alagoas. Lembro-me que o nome da cidade tinha algo a ver com “índio”.
Deve ser uma cidade histórica.
O fato é que a audiência seria na sexta-feira seguinte ao carnaval da Bahia. Seria um saco preparar uma contestação durante o carnaval, e ter que viajar para o interior de Alagoas. Mas, como dizia minha avó, o que não tem remédio remediado está.
Aproveitei o carnaval com minha namorada, saindo para ver a folia de salvador e depois indo descansar numa praia.
Na quarta de cinzas o ânimo das mini-férias já começou a ser abalados pela expectativa da viagem do dia seguinte: é que a audiência era às 8h40, e como a cidade ficava a mais de 100km da capital, achamos prudente ir de avião no dia anterior, alugar um carro e nos dirigirmos ao tal município.
Sozinho no aeroporto, comprei um romance de Jonh Grisham para passar o tempo. Entretanto, pouco tempo depois o preposto da empresa chegou e iniciamos uma conversa.
O vôo transcorreu tranquilamente, e, mal o avião terminou a subida, começou a descer. Em menos de uma hora estávamos em solo alagoano.
Entretanto nossa jornada no aeroporto não foi tão veloz. Diferentemente de mim, que trouxe apenas bagagem de mão, já que passaria apenas um dia fora de casa, o incauto preposto despachou sua pequena mala (era menor que a minha!). Com isso perdemos lentos 20min até que a sua mala fosse trazida.
Problemas resolvidos, carro alugado inspecionado, “embarcamos” rumo às estradas alagoanas para desbravar o interior do estado.
Pouco mais de 1h30min depois, chegamos ao nosso destino. Já eram 16h30. Tive a idéia de ir ao fórum para sabermos a localização e até olhar os documentos juntados ao processo, já que apenas tivemos acesso à petição inicial.
Começou a aventura.
Seguindo os caminhos indicados pelos nativos, adentramos uma estrada de barro. Era um verdadeiro Rally a bordo de um carro hatch. Obviamente não foi das experiências mais agradáveis. O pior, é que em menos de 10min localizamos o fórum, só que TODAS AS RUAS estavam em obras, e não conseguíamos um jeito de acessá-lo!
Depois de muitas voltas nas ruas de barro, conseguimos, finalmente chegar ao fórum. Eram 17h10. O fórum estava fechado.
Respirei fundo. Mas não pude me conter. Resmunguei por vários minutos sobre como pode uma fim de mundo como aquele ter um fórum, e como alguém teve a brilhante idéia de colocá-lo no meio do barro. Também registrei ao preposto, meu ouvinte um tanto assustado, minha indignação com o fim do expediente às 17h.
“Depois dizem que baiano que é preguiçoso”. Resmungava.
Também me irritei ao lembrar dos 20min que perdemos no aeroporto. Mas o estrago já estava feito.
Resolvemos procurar um hotel, se é que aquele lugar teria um. Após cerca de 15min nos locomovendo de carro pela cidade creio que já havíamos a conhecido por inteiro. Descobrimos um único prédio no município, que, coincidentemente, era um dos seus únicos dois hotéis.
No entanto, os nativos nos indicaram um segundo hotel para nos hospedarmos, pois, apesar de mais simples, seria muito melhor. Acreditamos.
O quarto tinha uma parede encardida. Os móveis eram vagabundos e a cama box tinha um lençol que me lembrava os que vemos em leitos de hospitais. Mas, diante das diversas indicações de que aquele seria o melhor hotel, hospedamo-nos.
Procuramos onde comer. Não encontramos um restaurante sequer na cidade. Voltamos ao hotel onde havia um “café regional”. Servimos-nos e nos recolhemos.
Já era por volta das 22h30 quando resolvi dormir. Mal estava encontrando a posição que mais me acomodava naquela cama e com aqueles travesseiros e escutei um estouro. O ar-condicionado parou de funcionar.
Puta que pariu.(é, dessa vez não me contive, e xinguei mesmo).
As duas horas seguintes foram de pura tortura. Tentei dormir de todo jeito, mas oras acordava com calor, oras com os insetos que entraram no quarto após eu ter aberto as janelas. O pior, é que com as janelas abertas, podia ouvir os diversos comentários de que só havia faltado energia “nessa rua”.
Deveria ter ido pro outro hotel...
Já passava da 1h da manhã quando a energia retornou e eu finalmente consegui dormir. Entretanto, seja pelo estresse, seja pela preocupação em perder o horário da audiência, dormi muito mal.
Acordei de mau humor. O preposto, por sua vez, dormiu bem. Isso me irritava. Inveja, creio eu. Fomos tomar café no restaurante do hotel e percebi que eram os mesmos itens do “café regional” e estavam, inclusive, na mesma disposição. Perdi o apetite.
Após fecharmos a conta no hotel, nos dirigimos ao fórum, já cientes do caminho que teríamos de fazer. Chegamos lá às 7h50 e não havia uma viva alma. Minto. Havia uma gentil faxineira.
Já passava das 8h e ninguém havia chegado.
“Eles são rígidos no horário de saída – saíram ontem às 17h – mas com os horários de chegada...” Comentei com o preposto que assentia com a cabeça.
Quando a primeira serventuária chegou, por volta das 8h15. A nossa audiência era a segunda da pauta. A primeira era às 8h30. Pude, finalmente ter acesso aos documentos que já haviam sido juntados. Tentei me cadastrar no Projudi de Alagoas, mas o único rapaz que poderia fazer isso estava de férias...
As 8h30 alguns advogados perambulavam pelo pequeno fórum. O conciliador estava atrasado. Uma serventuária me explicou que ele vinha de Maceió.
Já passava das 9h15 quando o sujeito, que vestia preto dos pés à cabeça chegou. Parecia um pavão. Era o dono do lugar. Chegou, não deu bom dia a ninguém. Adentrou o cartório e pareceu passar alguma instrução aos servidores.
Quando finalmente começou nossa audiência, eu já estava com tudo na pen-drive. Contestação, Procuração, Carta de Preposição e mais duas dezenas de documentos. Estava tranqüilo. Na verdade a ação era esdrúxula e a petição inicial era inepta.
Essa ação vai terminar na primeira preliminar.
“Tem proposta de acordo?” Indagou o pavão.
“Não.” Respondi.
“Então vou marcar a audiência de instrução.” Disse o Man in Black.
“Mas, doutor, o interrompi. Essa demanda é de matéria de direito! Não há o que discutir! Não podemos juntar a contestação e fazer os autos conclusos?”
“Não. O procedimento aqui é assim. Não há conciliação, há instrução.”
Meu deus!! Eu vou ter que voltar aqui!!!
“E pra quando seria essa instrução?” perguntei esperando que fosse dali uns 6 meses.
“Pra semana que vem!”
SOCORRO, MEU DEUS!!!
Depois de conversar um pouco mais, consegui fazer com que a audiência fosse marcada para duas semanas após aquela intragável viagem. Pelo menos teria tempo de me refazer emocionalmente. Decidi, também, só juntar os documentos na audiência de instrução, afinal para que já deixar à disposição da parte adversa todos os argumentos que usarei contra ele?
Retornamos - o preposto e eu - para Maceió, onde comemos uma boa moqueca à custa dos nossos empregadores, naturalmente.
“Algo de bom essa viagem tem que nos proporcionar” comentei.
“Com certeza” respondeu o preposto.
Eu ainda balançava a cabeça em sinal de tristeza, quando ele voltou a falar.
“Mas não se chateei, não! Pelo menos é uma história pra contar!”
...
Nem sei se deu uma boa história. Pra mim, foi tão infeliz, que não consigo ver qualidade. Mas, eis que a apresento. Seja para rirem de minha miséria (como eu faria caso fosse a história de alguém), seja para compadecerem-se deste pobre jovem advogado (mesmo porque, o "programa de índio 2 - O retorno" mostra-se inevitável).
Deve ser uma cidade histórica.
O fato é que a audiência seria na sexta-feira seguinte ao carnaval da Bahia. Seria um saco preparar uma contestação durante o carnaval, e ter que viajar para o interior de Alagoas. Mas, como dizia minha avó, o que não tem remédio remediado está.
Aproveitei o carnaval com minha namorada, saindo para ver a folia de salvador e depois indo descansar numa praia.
Na quarta de cinzas o ânimo das mini-férias já começou a ser abalados pela expectativa da viagem do dia seguinte: é que a audiência era às 8h40, e como a cidade ficava a mais de 100km da capital, achamos prudente ir de avião no dia anterior, alugar um carro e nos dirigirmos ao tal município.
Sozinho no aeroporto, comprei um romance de Jonh Grisham para passar o tempo. Entretanto, pouco tempo depois o preposto da empresa chegou e iniciamos uma conversa.
O vôo transcorreu tranquilamente, e, mal o avião terminou a subida, começou a descer. Em menos de uma hora estávamos em solo alagoano.
Entretanto nossa jornada no aeroporto não foi tão veloz. Diferentemente de mim, que trouxe apenas bagagem de mão, já que passaria apenas um dia fora de casa, o incauto preposto despachou sua pequena mala (era menor que a minha!). Com isso perdemos lentos 20min até que a sua mala fosse trazida.
Problemas resolvidos, carro alugado inspecionado, “embarcamos” rumo às estradas alagoanas para desbravar o interior do estado.
Pouco mais de 1h30min depois, chegamos ao nosso destino. Já eram 16h30. Tive a idéia de ir ao fórum para sabermos a localização e até olhar os documentos juntados ao processo, já que apenas tivemos acesso à petição inicial.
Começou a aventura.
Seguindo os caminhos indicados pelos nativos, adentramos uma estrada de barro. Era um verdadeiro Rally a bordo de um carro hatch. Obviamente não foi das experiências mais agradáveis. O pior, é que em menos de 10min localizamos o fórum, só que TODAS AS RUAS estavam em obras, e não conseguíamos um jeito de acessá-lo!
Depois de muitas voltas nas ruas de barro, conseguimos, finalmente chegar ao fórum. Eram 17h10. O fórum estava fechado.
Respirei fundo. Mas não pude me conter. Resmunguei por vários minutos sobre como pode uma fim de mundo como aquele ter um fórum, e como alguém teve a brilhante idéia de colocá-lo no meio do barro. Também registrei ao preposto, meu ouvinte um tanto assustado, minha indignação com o fim do expediente às 17h.
“Depois dizem que baiano que é preguiçoso”. Resmungava.
Também me irritei ao lembrar dos 20min que perdemos no aeroporto. Mas o estrago já estava feito.
Resolvemos procurar um hotel, se é que aquele lugar teria um. Após cerca de 15min nos locomovendo de carro pela cidade creio que já havíamos a conhecido por inteiro. Descobrimos um único prédio no município, que, coincidentemente, era um dos seus únicos dois hotéis.
No entanto, os nativos nos indicaram um segundo hotel para nos hospedarmos, pois, apesar de mais simples, seria muito melhor. Acreditamos.
O quarto tinha uma parede encardida. Os móveis eram vagabundos e a cama box tinha um lençol que me lembrava os que vemos em leitos de hospitais. Mas, diante das diversas indicações de que aquele seria o melhor hotel, hospedamo-nos.
Procuramos onde comer. Não encontramos um restaurante sequer na cidade. Voltamos ao hotel onde havia um “café regional”. Servimos-nos e nos recolhemos.
Já era por volta das 22h30 quando resolvi dormir. Mal estava encontrando a posição que mais me acomodava naquela cama e com aqueles travesseiros e escutei um estouro. O ar-condicionado parou de funcionar.
Puta que pariu.(é, dessa vez não me contive, e xinguei mesmo).
As duas horas seguintes foram de pura tortura. Tentei dormir de todo jeito, mas oras acordava com calor, oras com os insetos que entraram no quarto após eu ter aberto as janelas. O pior, é que com as janelas abertas, podia ouvir os diversos comentários de que só havia faltado energia “nessa rua”.
Deveria ter ido pro outro hotel...
Já passava da 1h da manhã quando a energia retornou e eu finalmente consegui dormir. Entretanto, seja pelo estresse, seja pela preocupação em perder o horário da audiência, dormi muito mal.
Acordei de mau humor. O preposto, por sua vez, dormiu bem. Isso me irritava. Inveja, creio eu. Fomos tomar café no restaurante do hotel e percebi que eram os mesmos itens do “café regional” e estavam, inclusive, na mesma disposição. Perdi o apetite.
Após fecharmos a conta no hotel, nos dirigimos ao fórum, já cientes do caminho que teríamos de fazer. Chegamos lá às 7h50 e não havia uma viva alma. Minto. Havia uma gentil faxineira.
Já passava das 8h e ninguém havia chegado.
“Eles são rígidos no horário de saída – saíram ontem às 17h – mas com os horários de chegada...” Comentei com o preposto que assentia com a cabeça.
Quando a primeira serventuária chegou, por volta das 8h15. A nossa audiência era a segunda da pauta. A primeira era às 8h30. Pude, finalmente ter acesso aos documentos que já haviam sido juntados. Tentei me cadastrar no Projudi de Alagoas, mas o único rapaz que poderia fazer isso estava de férias...
As 8h30 alguns advogados perambulavam pelo pequeno fórum. O conciliador estava atrasado. Uma serventuária me explicou que ele vinha de Maceió.
Já passava das 9h15 quando o sujeito, que vestia preto dos pés à cabeça chegou. Parecia um pavão. Era o dono do lugar. Chegou, não deu bom dia a ninguém. Adentrou o cartório e pareceu passar alguma instrução aos servidores.
Quando finalmente começou nossa audiência, eu já estava com tudo na pen-drive. Contestação, Procuração, Carta de Preposição e mais duas dezenas de documentos. Estava tranqüilo. Na verdade a ação era esdrúxula e a petição inicial era inepta.
Essa ação vai terminar na primeira preliminar.
“Tem proposta de acordo?” Indagou o pavão.
“Não.” Respondi.
“Então vou marcar a audiência de instrução.” Disse o Man in Black.
“Mas, doutor, o interrompi. Essa demanda é de matéria de direito! Não há o que discutir! Não podemos juntar a contestação e fazer os autos conclusos?”
“Não. O procedimento aqui é assim. Não há conciliação, há instrução.”
Meu deus!! Eu vou ter que voltar aqui!!!
“E pra quando seria essa instrução?” perguntei esperando que fosse dali uns 6 meses.
“Pra semana que vem!”
SOCORRO, MEU DEUS!!!
Depois de conversar um pouco mais, consegui fazer com que a audiência fosse marcada para duas semanas após aquela intragável viagem. Pelo menos teria tempo de me refazer emocionalmente. Decidi, também, só juntar os documentos na audiência de instrução, afinal para que já deixar à disposição da parte adversa todos os argumentos que usarei contra ele?
Retornamos - o preposto e eu - para Maceió, onde comemos uma boa moqueca à custa dos nossos empregadores, naturalmente.
“Algo de bom essa viagem tem que nos proporcionar” comentei.
“Com certeza” respondeu o preposto.
Eu ainda balançava a cabeça em sinal de tristeza, quando ele voltou a falar.
“Mas não se chateei, não! Pelo menos é uma história pra contar!”
...
Nem sei se deu uma boa história. Pra mim, foi tão infeliz, que não consigo ver qualidade. Mas, eis que a apresento. Seja para rirem de minha miséria (como eu faria caso fosse a história de alguém), seja para compadecerem-se deste pobre jovem advogado (mesmo porque, o "programa de índio 2 - O retorno" mostra-se inevitável).
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
A PEDAGOGIA DA VIDA REAL
Na semana passada fui ao psicólogo. Fiquei um pouco reflexivo desde então.
Na verdade não fiquei muito satisfeito com a consulta. Para variar, voltei com mais perguntas do que quando fui. Respostas que seriam o bom, nada.
A pergunta que encerrou a sessão foi “porque eu teria feito direito, em primeiro lugar?”
Não consigo entender qual a relação entre o motivo da escolha de minha profissão e meu sonho de acertar pessoas com taco de beisebol... Mas o sujeito estudou anos pra se tornar psicólogo e deve saber o que está fazendo. Eu espero...
Enfim, nessa semana que me foi tomada para reflexão, percebi que a pergunta na verdade não deveria ser “porque eu fiz direito”, mas sim “porque eu quis ser advogado”. Diferentemente da maioria das pessoas que cursam direito hoje em dia, eu nunca me interessei por concursos, sempre quis ser advogado.
Na verdade, eu fui enganado. Enganado pela TV. Eu me considero um cinéfilo. Adoro filmes e séries em geral. Em específico, eu adoro séries jurídicas e filmes “de tribunal”.
Se bem me recordo o primeiro filme desse estilo que assisti foi “As duas faces de um crime” com Richard Gere e Edward Norton. Fantástico. “O advogado do diabo”, com Al Pacino e Keanu Reeves também é espetacular.
No campo das séries jurídicas, há um sem número. Posso citar de memória “Shark”, “Ally McBeal”, “Damages” e “Justiça sem limites”.
O que sempre me chamou atenção nessas obras foi a importância do advogado: um sujeito inteligente, capaz de convencer pessoas.
Eis alguns fatores que me encantaram na advocacia:
1. As discussões eram mais (ao meu ver) sobre questões de bom senso do que leis em específico;
2. Os processos eram fundamentalmente orais. Nada de 300 folhas de papel. O que valia era a boa oratória do advogado aliada ao seu conhecimento e carisma;
3. E as condenações? Sempre na casa dos milhares ou milhões de dólares! A função pedagógica da punição civil era uma coisa séria. Não bastava compensar a vítima. Havia uma lição para que os erros não fossem cometidos novamente prejudicando outros inocentes;
4. Os casos eram dinâmicos, rápidos. O advogado era apresentado ao problema, dali alguns dias tinha uma audiência com a outra parte, ou mesmo uma audiência judicial. Em qualquer circunstância o processo não parecia levar anos para ser finalizado; e
5. Outra coisa interessante é que as causas em geral – não só crimes dolosos contra a vida - tinham como juiz um júri popular. Ver os protagonistas conduzindo o raciocínio do júri, conquistando sua confiança e fazendo prevalecer o interesse do seu cliente – que, via de regra, era o mocinho – me fascinava.
Estava decido: eu queria ser advogado.
Infelizmente, os filmes eram americanos e eu moro no Brasil. Fui ludibriado pela dublagem que me fazia crer que só porque os personagens falavam minha língua viviam no mesmo lugar que eu.
Pobre criança inocente.
Não que eu ache o judiciário americano perfeito. Longe de mim. Mas essa discussão não vem ao caso.
O fato é que eu gostava da idéia de convencer pessoas. De discursar. De conseguir vencer. E por fim de ver a satisfação do meu cliente.
Na época nem pensava em receber os honorários...
Hoje, confronto aquele mundo que me inspirou ao meu mundo real: A Justiça brasileira, e, mais especificamente, a baiana.
Pensando nisso, só posso dar um riso amarelo e balançar a cabeça negativamente ao perceber como as coisas não são como eu sonhava...
(...)
Um caso chegou a mim recentemente. Uma senhora de pouco mais de setenta anos foi diagnosticada com câncer. Essa mulher, anos antes, havia feito um seguro de vida que lhe previa o pagamento de indenização no caso do evento “invalidez por doença”, o que era o caso - inclusive há atestados de órgãos oficiais que revelam a condição de incapaz dessa senhora.
Diante disso, ela busca – HÁ MESES – receber a indenização que tem direito.
Vejam bem, eu disse que uma senhora de seus setenta e poucos anos – COM CÂNCER – está tentando receber o que tem direito. Há meses. Obviamente, imagino que ela não tem muitos meses mais para exigir os seus direitos (embora, naturalmente, espere o contrário).
O fato é que a conduta abusiva das seguradoras é algo comum por aqui. Se eu vivesse no mundo dos filmes e das séries, iríamos propor a ação e além de receber a indenização a que faz jus contratualmente certamente a cliente receberia – RAPIDAMENTE - uma boa quantia a título de dano moral e em razão do caráter pedagógico que a punição deve ter.
Mas, aqui, no mundo real, eu vou dizer o que vai acontecer.
Provavelmente, iremos ganhar a causa.
Certamente haverá uma condenação por danos morais, além da indenização contratada.
Como aqui ainda não há uma boa aplicação do punitive damage, a condenação no processo não será tão elevada como seria no mundo dos filmes. Consequentemente, as seguradoras continuarão fazendo com diversas pessoas o que fizeram com essa senhora.
Ah, sim! Infelizmente, é possível, e até provável, que apenas os herdeiros da cliente recebam a indenização.
Essa é a triste realidade.
Mas foi ao ver tudo isso que eu pude compreender a relação da pergunta do psicólogo.
Apesar disso tudo, a essência do motivo que me fez ser advogado não foi a parte glamorosa da coisa – embora, naturalmente, esse tenha sido um grande plus, principalmente para conquistar minha atenção num primeiro momento.
O fato é: o que me importa é convencer alguém de algo, e com isso, conseguir fazer valer o direito do cliente.
(Percebo ainda a pouca importância que dou aos honorários, preciso melhorar isso...).
O que me tira do sério são aqueles que, em vez de cumprir seus papéis e fazer a engrenagem funcionar normalmente para que eu atinja meu objetivo, fazem corpo mole, ficam de má vontade ou são corruptos.
O motivo de minha raiva não é o mero contraste entre o meu trabalho duro com a postura sanguessuga de alguns. É a frustração. A percepção de que meu objetivo se distancia em razão de determinadas condutas.
Ok. Agora eu entendi o porquê.
(...)
Mas, por acaso, isso não é mais um motivo para querer agredi-los com meu taco de beisebol?
Na verdade não fiquei muito satisfeito com a consulta. Para variar, voltei com mais perguntas do que quando fui. Respostas que seriam o bom, nada.
A pergunta que encerrou a sessão foi “porque eu teria feito direito, em primeiro lugar?”
Não consigo entender qual a relação entre o motivo da escolha de minha profissão e meu sonho de acertar pessoas com taco de beisebol... Mas o sujeito estudou anos pra se tornar psicólogo e deve saber o que está fazendo. Eu espero...
Enfim, nessa semana que me foi tomada para reflexão, percebi que a pergunta na verdade não deveria ser “porque eu fiz direito”, mas sim “porque eu quis ser advogado”. Diferentemente da maioria das pessoas que cursam direito hoje em dia, eu nunca me interessei por concursos, sempre quis ser advogado.
Na verdade, eu fui enganado. Enganado pela TV. Eu me considero um cinéfilo. Adoro filmes e séries em geral. Em específico, eu adoro séries jurídicas e filmes “de tribunal”.
Se bem me recordo o primeiro filme desse estilo que assisti foi “As duas faces de um crime” com Richard Gere e Edward Norton. Fantástico. “O advogado do diabo”, com Al Pacino e Keanu Reeves também é espetacular.
No campo das séries jurídicas, há um sem número. Posso citar de memória “Shark”, “Ally McBeal”, “Damages” e “Justiça sem limites”.
O que sempre me chamou atenção nessas obras foi a importância do advogado: um sujeito inteligente, capaz de convencer pessoas.
Eis alguns fatores que me encantaram na advocacia:
1. As discussões eram mais (ao meu ver) sobre questões de bom senso do que leis em específico;
2. Os processos eram fundamentalmente orais. Nada de 300 folhas de papel. O que valia era a boa oratória do advogado aliada ao seu conhecimento e carisma;
3. E as condenações? Sempre na casa dos milhares ou milhões de dólares! A função pedagógica da punição civil era uma coisa séria. Não bastava compensar a vítima. Havia uma lição para que os erros não fossem cometidos novamente prejudicando outros inocentes;
4. Os casos eram dinâmicos, rápidos. O advogado era apresentado ao problema, dali alguns dias tinha uma audiência com a outra parte, ou mesmo uma audiência judicial. Em qualquer circunstância o processo não parecia levar anos para ser finalizado; e
5. Outra coisa interessante é que as causas em geral – não só crimes dolosos contra a vida - tinham como juiz um júri popular. Ver os protagonistas conduzindo o raciocínio do júri, conquistando sua confiança e fazendo prevalecer o interesse do seu cliente – que, via de regra, era o mocinho – me fascinava.
Estava decido: eu queria ser advogado.
Infelizmente, os filmes eram americanos e eu moro no Brasil. Fui ludibriado pela dublagem que me fazia crer que só porque os personagens falavam minha língua viviam no mesmo lugar que eu.
Pobre criança inocente.
Não que eu ache o judiciário americano perfeito. Longe de mim. Mas essa discussão não vem ao caso.
O fato é que eu gostava da idéia de convencer pessoas. De discursar. De conseguir vencer. E por fim de ver a satisfação do meu cliente.
Na época nem pensava em receber os honorários...
Hoje, confronto aquele mundo que me inspirou ao meu mundo real: A Justiça brasileira, e, mais especificamente, a baiana.
Pensando nisso, só posso dar um riso amarelo e balançar a cabeça negativamente ao perceber como as coisas não são como eu sonhava...
(...)
Um caso chegou a mim recentemente. Uma senhora de pouco mais de setenta anos foi diagnosticada com câncer. Essa mulher, anos antes, havia feito um seguro de vida que lhe previa o pagamento de indenização no caso do evento “invalidez por doença”, o que era o caso - inclusive há atestados de órgãos oficiais que revelam a condição de incapaz dessa senhora.
Diante disso, ela busca – HÁ MESES – receber a indenização que tem direito.
Vejam bem, eu disse que uma senhora de seus setenta e poucos anos – COM CÂNCER – está tentando receber o que tem direito. Há meses. Obviamente, imagino que ela não tem muitos meses mais para exigir os seus direitos (embora, naturalmente, espere o contrário).
O fato é que a conduta abusiva das seguradoras é algo comum por aqui. Se eu vivesse no mundo dos filmes e das séries, iríamos propor a ação e além de receber a indenização a que faz jus contratualmente certamente a cliente receberia – RAPIDAMENTE - uma boa quantia a título de dano moral e em razão do caráter pedagógico que a punição deve ter.
Mas, aqui, no mundo real, eu vou dizer o que vai acontecer.
Provavelmente, iremos ganhar a causa.
Certamente haverá uma condenação por danos morais, além da indenização contratada.
Como aqui ainda não há uma boa aplicação do punitive damage, a condenação no processo não será tão elevada como seria no mundo dos filmes. Consequentemente, as seguradoras continuarão fazendo com diversas pessoas o que fizeram com essa senhora.
Ah, sim! Infelizmente, é possível, e até provável, que apenas os herdeiros da cliente recebam a indenização.
Essa é a triste realidade.
Mas foi ao ver tudo isso que eu pude compreender a relação da pergunta do psicólogo.
Apesar disso tudo, a essência do motivo que me fez ser advogado não foi a parte glamorosa da coisa – embora, naturalmente, esse tenha sido um grande plus, principalmente para conquistar minha atenção num primeiro momento.
O fato é: o que me importa é convencer alguém de algo, e com isso, conseguir fazer valer o direito do cliente.
(Percebo ainda a pouca importância que dou aos honorários, preciso melhorar isso...).
O que me tira do sério são aqueles que, em vez de cumprir seus papéis e fazer a engrenagem funcionar normalmente para que eu atinja meu objetivo, fazem corpo mole, ficam de má vontade ou são corruptos.
O motivo de minha raiva não é o mero contraste entre o meu trabalho duro com a postura sanguessuga de alguns. É a frustração. A percepção de que meu objetivo se distancia em razão de determinadas condutas.
Ok. Agora eu entendi o porquê.
(...)
Mas, por acaso, isso não é mais um motivo para querer agredi-los com meu taco de beisebol?
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