sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

PROGRAMA DE ÍNDIO

Pouco antes do carnaval, meu chefe havia me passado um caso de uma empresa cujos sócios são seus amigos. Ela havia sido acionada por uma senhora numa cidade do interior de Alagoas. Lembro-me que o nome da cidade tinha algo a ver com “índio”.

Deve ser uma cidade histórica.

O fato é que a audiência seria na sexta-feira seguinte ao carnaval da Bahia. Seria um saco preparar uma contestação durante o carnaval, e ter que viajar para o interior de Alagoas. Mas, como dizia minha avó, o que não tem remédio remediado está.

Aproveitei o carnaval com minha namorada, saindo para ver a folia de salvador e depois indo descansar numa praia.

Na quarta de cinzas o ânimo das mini-férias já começou a ser abalados pela expectativa da viagem do dia seguinte: é que a audiência era às 8h40, e como a cidade ficava a mais de 100km da capital, achamos prudente ir de avião no dia anterior, alugar um carro e nos dirigirmos ao tal município.

Sozinho no aeroporto, comprei um romance de Jonh Grisham para passar o tempo. Entretanto, pouco tempo depois o preposto da empresa chegou e iniciamos uma conversa.

O vôo transcorreu tranquilamente, e, mal o avião terminou a subida, começou a descer. Em menos de uma hora estávamos em solo alagoano.

Entretanto nossa jornada no aeroporto não foi tão veloz. Diferentemente de mim, que trouxe apenas bagagem de mão, já que passaria apenas um dia fora de casa, o incauto preposto despachou sua pequena mala (era menor que a minha!). Com isso perdemos lentos 20min até que a sua mala fosse trazida.

Problemas resolvidos, carro alugado inspecionado, “embarcamos” rumo às estradas alagoanas para desbravar o interior do estado.

Pouco mais de 1h30min depois, chegamos ao nosso destino. Já eram 16h30. Tive a idéia de ir ao fórum para sabermos a localização e até olhar os documentos juntados ao processo, já que apenas tivemos acesso à petição inicial.

Começou a aventura.

Seguindo os caminhos indicados pelos nativos, adentramos uma estrada de barro. Era um verdadeiro Rally a bordo de um carro hatch. Obviamente não foi das experiências mais agradáveis. O pior, é que em menos de 10min localizamos o fórum, só que TODAS AS RUAS estavam em obras, e não conseguíamos um jeito de acessá-lo!

Depois de muitas voltas nas ruas de barro, conseguimos, finalmente chegar ao fórum. Eram 17h10. O fórum estava fechado.

Respirei fundo. Mas não pude me conter. Resmunguei por vários minutos sobre como pode uma fim de mundo como aquele ter um fórum, e como alguém teve a brilhante idéia de colocá-lo no meio do barro. Também registrei ao preposto, meu ouvinte um tanto assustado, minha indignação com o fim do expediente às 17h.

“Depois dizem que baiano que é preguiçoso”. Resmungava.

Também me irritei ao lembrar dos 20min que perdemos no aeroporto. Mas o estrago já estava feito.

Resolvemos procurar um hotel, se é que aquele lugar teria um. Após cerca de 15min nos locomovendo de carro pela cidade creio que já havíamos a conhecido por inteiro. Descobrimos um único prédio no município, que, coincidentemente, era um dos seus únicos dois hotéis.

No entanto, os nativos nos indicaram um segundo hotel para nos hospedarmos, pois, apesar de mais simples, seria muito melhor. Acreditamos.

O quarto tinha uma parede encardida. Os móveis eram vagabundos e a cama box tinha um lençol que me lembrava os que vemos em leitos de hospitais. Mas, diante das diversas indicações de que aquele seria o melhor hotel, hospedamo-nos.

Procuramos onde comer. Não encontramos um restaurante sequer na cidade. Voltamos ao hotel onde havia um “café regional”. Servimos-nos e nos recolhemos.

Já era por volta das 22h30 quando resolvi dormir. Mal estava encontrando a posição que mais me acomodava naquela cama e com aqueles travesseiros e escutei um estouro. O ar-condicionado parou de funcionar.

Puta que pariu.(é, dessa vez não me contive, e xinguei mesmo).

As duas horas seguintes foram de pura tortura. Tentei dormir de todo jeito, mas oras acordava com calor, oras com os insetos que entraram no quarto após eu ter aberto as janelas. O pior, é que com as janelas abertas, podia ouvir os diversos comentários de que só havia faltado energia “nessa rua”.

Deveria ter ido pro outro hotel...

Já passava da 1h da manhã quando a energia retornou e eu finalmente consegui dormir. Entretanto, seja pelo estresse, seja pela preocupação em perder o horário da audiência, dormi muito mal.

Acordei de mau humor. O preposto, por sua vez, dormiu bem. Isso me irritava. Inveja, creio eu. Fomos tomar café no restaurante do hotel e percebi que eram os mesmos itens do “café regional” e estavam, inclusive, na mesma disposição. Perdi o apetite.

Após fecharmos a conta no hotel, nos dirigimos ao fórum, já cientes do caminho que teríamos de fazer. Chegamos lá às 7h50 e não havia uma viva alma. Minto. Havia uma gentil faxineira.

Já passava das 8h e ninguém havia chegado.

“Eles são rígidos no horário de saída – saíram ontem às 17h – mas com os horários de chegada...” Comentei com o preposto que assentia com a cabeça.

Quando a primeira serventuária chegou, por volta das 8h15. A nossa audiência era a segunda da pauta. A primeira era às 8h30. Pude, finalmente ter acesso aos documentos que já haviam sido juntados. Tentei me cadastrar no Projudi de Alagoas, mas o único rapaz que poderia fazer isso estava de férias...

As 8h30 alguns advogados perambulavam pelo pequeno fórum. O conciliador estava atrasado. Uma serventuária me explicou que ele vinha de Maceió.

Já passava das 9h15 quando o sujeito, que vestia preto dos pés à cabeça chegou. Parecia um pavão. Era o dono do lugar. Chegou, não deu bom dia a ninguém. Adentrou o cartório e pareceu passar alguma instrução aos servidores.

Quando finalmente começou nossa audiência, eu já estava com tudo na pen-drive. Contestação, Procuração, Carta de Preposição e mais duas dezenas de documentos. Estava tranqüilo. Na verdade a ação era esdrúxula e a petição inicial era inepta.

Essa ação vai terminar na primeira preliminar.

“Tem proposta de acordo?” Indagou o pavão.

“Não.” Respondi.

“Então vou marcar a audiência de instrução.” Disse o Man in Black.

“Mas, doutor, o interrompi. Essa demanda é de matéria de direito! Não há o que discutir! Não podemos juntar a contestação e fazer os autos conclusos?”

“Não. O procedimento aqui é assim. Não há conciliação, há instrução.”

Meu deus!! Eu vou ter que voltar aqui!!!

“E pra quando seria essa instrução?” perguntei esperando que fosse dali uns 6 meses.

“Pra semana que vem!”

SOCORRO, MEU DEUS!!!

Depois de conversar um pouco mais, consegui fazer com que a audiência fosse marcada para duas semanas após aquela intragável viagem. Pelo menos teria tempo de me refazer emocionalmente. Decidi, também, só juntar os documentos na audiência de instrução, afinal para que já deixar à disposição da parte adversa todos os argumentos que usarei contra ele?

Retornamos - o preposto e eu - para Maceió, onde comemos uma boa moqueca à custa dos nossos empregadores, naturalmente.

“Algo de bom essa viagem tem que nos proporcionar” comentei.

“Com certeza” respondeu o preposto.

Eu ainda balançava a cabeça em sinal de tristeza, quando ele voltou a falar.

“Mas não se chateei, não! Pelo menos é uma história pra contar!”

...

Nem sei se deu uma boa história. Pra mim, foi tão infeliz, que não consigo ver qualidade. Mas, eis que a apresento. Seja para rirem de minha miséria (como eu faria caso fosse a história de alguém), seja para compadecerem-se deste pobre jovem advogado (mesmo porque, o "programa de índio 2 - O retorno" mostra-se inevitável).

3 comentários:

  1. No caso: "Seja para rirem de minha miséria (como eu faria caso fosse a história de alguém)"

    HAHUAHUUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAHUAHUAHUHUAHUUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAHUAHUAHUAHUUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAHUAHUAHUAHUUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAHUAHUA!!!

    O q eu acho fantástico é esse povo q adota 1 procedimento próprio, n importa o q o CPC e as demais leis digam! Pessoal criatiiivo, né? hUAhuaHuhauhaUH!

    Aguardo ansiosamente o "programa de índio 2 - O retorno"!

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  2. Vc precisa escutar a história contada pessoalmente por seu autor! ahuahuahua! o dobro de mais engraçado! ahuahuauha!

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