Eu vivia uma desestimulante rotina de tédio e desgosto. Além das irritações de praxe, eu estava bastante chateado com o trato com os clientes. Alguns vinham com cobranças contínuas e desagradáveis.
“O processo não andou? Você não vai lá falar com juiz? Cadê o oficial de justiça pra ir lá falar com o réu? E por que, raios, a liminar ainda não foi concedida?”.
Nessas horas eu respirava fundo e me perguntava o motivo de ainda advogar – como se o fizesse há muitos anos e já estivesse desgastado da profissão. Cheguei a cogitar prestar algum concurso.
Que pensamento de velho deprimido.
Ao menos tinha as aulas da pós-graduação que vinham sendo uma boa forma de quebrar o marasmo.
Minha irritação com o cotidiano, entretanto, teve uma pequena pausa antes mesmo da aula da pós, pois me foi trazido um caso urgente: um bebê de 4 meses, com febre há 4 dias, precisava ser internado, pois os médicos tinham falhado em diagnosticar a doença que lhe acometia e com isso o garoto precisava de acompanhamento de perto.
Ocorre que o pirralho, como já disse, tinha 4 meses, e a carência exigida pelo plano de saúde para gastos com internação era de 6 meses.
Chega a ser uma piada de mau gosto.
No mesmo dia dei entrada na ação. Fui ao juizado para diligenciar a sua apreciação. Aproveitando o ensejo tentaria fazer com que outros processos andassem.
Em menos de duas horas consegui a liminar. Era um novo recorde pessoal.
Fiquei feliz.
Resolvi testar minha sorte nos outros processos. A resposta foi negativa.
Os servidores me olhavam com desdém. Naquele fim de tarde de sexta-feira, como um advogado nao se satisfazia já tendo conseguido uma liminar?
Ei, menino branco, o que é que você faz aqui? Subindo o morro pra tentar se divertir, mas já disse que não tem, e você ainda quer mais! Por quê você não me deixa em paz?
Frustrado, mais uma vez.
Fui para o meu carro e dirigi até o local de aula. O dilúvio que caía sobre a cidade combinava com o meu estado de humor, que, até de uma forma exagerada, admito, passou da felicidade para uma sensação de desconforto terrível.
Cheguei no horário da aula, mas, em razão das fortes chuvas, o professor estava atrasado. Enquanto ele não chegava, meus colegas, que não conheço bem, conversavam entre si. Vez por outra eu intervinha, mas não cheguei a engatar uma conversa.
Já estava mais distraído e relaxado quando alguns dos alunos, que eram servidores públicos, começaram a praguejar contra o aumento de sua carga horária e diminuição de benefícios.
“É um absurdo! Por quê não começam pelos juízes?” Bradava um.
“Por essas e outras que quando faltam 10 minutos para acabar o expediente eu já desligo tudo e não atendo mais ninguém! Os advogados reclamam, mas não sabem pelo que nós passamos!” Disse outra.
Eu, que estava sentado um pouco mais à frente, me virei para trás, incrédulo, para olhar as faces dos sujeitos que até pouco antes tinham discussões jurídicas interessantes.
Eles falavam determinados. Certos do que diziam. Tinham que ser compreendidos. Como alguém poderia criticá-los?
Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel... Sempre mais do mesmo... Não era isso o que você queria ouvir?
Antes que pudesse levantar para me livrar, ainda que momentaneamente, daquela companhia que me estava sendo tão nociva, o professor chegou e já foi começando sua apresentação.
A aula ia bem, até que o próprio professor começou a desabafar, falando de seus dissabores com a Justiça, se é que se pode chamar o judiciário assim - como alguns salientaram.
Ele contou várias histórias que me deixaram ainda mais deprimido. A pior de todas foi a de uma jovem advogada que veio do interior e no seu primeiro caso em Salvador, recebeu, poucos dias depois da distribuição do processo, um telefonema do oficial de justiça.
A surpresa da jovem por receber a ligação só não foi maior que a pelo seu conteúdo. O oficial queria uma “ajuda de custo” para realizar a citação. Perplexa, a jovem não respondeu de imediato, combinando de retornar a ligação posteriormente.
Jovem e idealista, a advogada não poderia deixar que as coisas acontecessem daquela forma.
Teve uma idéia.
Retornou a ligação. Acertou tudo com o sujeito. Detalhes do pagamento, horários. Para ele estava tudo na mais perfeita ordem. Para ela também, afinal, havia gravado toda a conversa.
No mesmo dia, a jovem foi até a corregedoria, onde teve o azar de se deparar com um sujeito tão mau-caráter quanto oficial. O vagabundo disse à advogada que ela era uma irresponsável criminosa, pois havia gravado uma conversa sem conhecimento nem autorização da outra parte, que aquilo era uma prova inválida e a escorraçou do recinto.
Simples assim.
A jovem inexperiente chorou.
Lembrei de um filme que havia (re)assistido recentemente. “O senhor das armas” com Nicolas Cage. Fantástica obra. Num determinado ponto do filme, o protagonista, faz uma afirmação que me veio a mente quando ouvi a história narrada pelo professor.
“Alguém, uma vez, disse que o mal prevalece quando os bons homens falham em agir. Deveriam dizer, simplesmente, que o mal prevalece.”
Depois dessa pérola, eu estava resolvido a ir pra casa. Apenas uma boa noite de sono poderia me recuperar. Contudo, antes que eu pudesse juntar meu material para me retirar, o professor continuou divagando.
Nessas horas, eu me lembro de diversos alunos, que depois de advogarem por um
tempo, me dizem que não agüentam mais, que os servidores são insuportáveis, que
os juízes são pouco acessíveis e que não têm mais estômago pra esse trabalho.
Então, quando pergunto o que vão fazer a respeito disso, eles respondem:‘Vou fazer concurso!’
Então, incrédulo com a incoerência, lhes pergunto se é realmente melhor deixar de ser advogado por causa de pessoas de quem não gostamos para nos tornarmos colegas delas, ou melhor, uma delas.
Bondade sua me explicar com tanta determinação exatamente o que eu sinto, como penso e como sou. Eu realmente não sabia que eu pensava assim.
Voltei para casa mais calmo. Renovado. A resposta era tão simples. Como uma música que já estava na minha cabeça, mas que eu não conseguia lembrar.
Se não pode vencê-los...
Esforce-se mais.
Indignada com quase tudo que você disse, mas feliz com o final da história. Tomara que você não desista.
ResponderExcluirAh, excelente música, por sinal! :D
Belo texto primo. Voltando em alto estilo.
ResponderExcluirFalando sobre o texto, eh realmente uma coisa recorrente esse tema que vc glossa: a briga contra o sistema. Lidar com o mundo e ver a tudo akilo que nossos pais nos protegeram realmente eh mto duro, as vezes revoltante, as vezes depressivo. Agora, fazendo uma citaçao que um filosofo fez num texto meu: "O mundo não é feito de arco-íris. É um lugar ruim e duro, e não importa o quão forte seja, vai colocá-lo de joelhos e vai deixá-lo lá. Ninguém vai bater mais forte do que a vida, mas não importa o quanto vc bate, e sim o quanto agüenta apanhar e continuar tocando. O quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha.".
O resto eh aquilo mesmo e nao muda nada!
Amei o trecho: "é realmente melhor deixar de ser advogado por causa de pessoas de quem não gostamos para nos tornarmos colegas delas, ou melhor, um deles"
ResponderExcluirserá que é isso mesmo que é o mais correto? Ou ocmo disse Lulu, vamos continuar apanhado porque nós comcerteza aguetamos mais!!! Não é assim tão fácil nos derrubar!!!
Adorei seu texto! Parabéns!
Pedro...
ResponderExcluirmuito bacana o seu blog. Acabei achando numa pesquisa no Google sobre um tema jurídico, você acredita? Sinal de que está sendo bem lido, pois veio como resultado logo na primeira página. Demorou para entender que você era você rs, a maior pista foi a participação cativa de sua namorada Adriana, além de pitacos de pessoas conhecidas do Anchieta.
Meu caro, é fato de que os nossos colegas, em sua maioria, preferiram o concurso. Salvo engano nos formamos em mesma turma, e conto em dedo de mãos as pessoas que tenho notícia que estão advogando. O resto é concurso.
Eu, entre os primeiros, entre os nossos, cá estou, passando por situações parecidas com as suas, na labuta advocatícia, com os mesmos questionamentos.
O que nos diferencia de nossos colegas? Porque não escolhemos (ainda?) o concurso público ? Somos menos inteligentes, capacitados do que os nossos colegas a que tivemos acesso pela mesma cabulosa prova de vestibular? Certamente que não. Então, porque não fazer concurso, não é lógico?
Acredito piamente que nós que queremos ser advogados nutrimos a busca pelo inédito. Não nos acostumaríamos a todos os dias repetir fórmulas, sem metas maiores. Advogar é fletar com o desconhecido, é mudar, é provocar e não ser apenas provocado. É indagar e preparar respostas. É ir além do sim e do não.
Aliás, me diga um colega da época de gincana que tenha feito concurso público. rsrsrs De Ivana a Érica, não conheço. Porque será?
Você escreve bem, e foi muito reconfortante compartilhar dos mesmos problemas. Isso nos motiva em busca das soluções, das superações individuais que tanto necessitamos.
Estarei lendo você a partir de agora.
Grande abraço, Bernardo Chezzi
Bernardo, valeu pelo post e pelo elogio! Bem vindo ao blog! Ele tá meio parado ultimamente por falta de histórias e porque eu tava de férias!
ResponderExcluirMas agora to de volta e cheio de problemas novos, portanto, daqui a pouquinho tem posto novo!
Sobre o porque de advogar, concordo com tudo que vc disse, mas vou te dizer: tá dificil...
Mas é isso aí, vivendo e aprendendo a jogar.
Abraço
Esse texto deveria ser ´publicado!!!
ResponderExcluirRemeta à Veja ou Isto é ou mesmo à tarde... Nao foi o meu caso porque a minha patologia vocacional é nitidamente perceptível, mas... e ad argumentandum tatum, por vezes sinto a mesma vontade na magistral-tura...