Meses se passarem desde a última vez que recorri a este diário. Tempo para escrever nele não me faltou, mas ânimo e assunto, sim.
No último semestre do ano que se passou tomei decisões e tracei os rumos que trilharia.
O pouco que eu sei de administração e empreendedorismo era suficiente para que eu soubesse como planejar um negócio. Todo cuidado para iniciar um novo negócio é pouco. Ainda mais advocacia num mercado como Salvador. Tudo deve ser feito com cautela para que o projeto prospere.
Apesar de saber disso tudo, minha natureza ansiosa não permitiu que eu vivesse os últimos meses de forma tranqüila. Mesmo vendo o projeto andar – contrato social firmado e protocolado na OAB, sala alugada, seguro contratado etc e tal – o fato de não estar “trabalhando” normalmente era um grande incômodo.
Não sei bem se o que me incomodava mais era o fato de eu não estar trabalhando da forma convencional (indo ao escritório, tendo reuniões...) ou o fato das pessoas constantemente me questionarem se eu estava trabalhando.
Para que eu pudesse vir a trabalhar tive que tomar cuidado, planejando cada passo. Isso demanda tempo. O resultado é que no último mês de 2010, as coisas engrenaram. A sala alugada está sob análise da arquiteta que nos apresentará o projeto que será executado ainda nesse mês de janeiro.
Espero estar trabalhando convencionalmente antes do carnaval. E espero que possa trabalhar nesse projeto por muito tempo, afinal, os 6 meses que investi na sua criação são tão ou mais preciosos que o investimento financeiro que terei que fazer.
(...)
Apesar de focado na criação do escritório, eu tinha que buscar algumas causas, afinal, dinheiro na conta no fim do mês é bom e eu gosto.
Nada mais satisfatório que conseguir uma liminar rapidamente na Justiça Estadual. E olhe que não era caso de plano de saúde em juizado.
Era uma demanda consumerista movida em face de uma construtora que enfrenta diversos problemas em Salvador. A vida deles não deve estar nada fácil.
Escutei de um colega advogado que “é mesquinho e oportunista que os consumidores busquem indenizações por atrasos das construtoras tendo em vista a crise pela qual o setor passa”.
Não engatei uma discussão, mas me perguntava se ele aconselhava suas clientes construtoras a serem condescendentes com os adquirentes que atrasavam pagamentos de seus contratos por passarem por dificuldades financeiras, crises familiares ou coisas do tipo...
Como bem disseram em “Tropa de Elite 2” (filmaço, aliás): cada cachorro que lamba sua caceta! Ou, no bom baianês: Farinha pouca, meu pirão primeiro.
Aliás, é com esse lema que vivem muitos dos serventuários da Justiça Estadual, como eu bem já frisei em diversas outras ocasiões.
A liminar do processo do meu cliente foi concedida pelo juiz, mas a mera concessão não significa nada se a construtora não for intimada pelo oficial de justiça. Para os leigos: isso quer dizer que o oficial tem que levar o papel com a determinação do juiz para a parte ré, no caso a construtora e, só a partir de então, ela será obrigada a atender à ordem judicial.
Mas é aquela história... Farinha pouca, meu pirão primeiro...
O oficial responsável pela intimação tinha muitas diligências para cumprir, não tinha carro... Enfim, precisava de uma “ajuda de custo” para fazer a engrenagem do judiciário funcionar devidamente.
Pela segunda vez em um ano (o que para alguns colegas é um número muito pequeno) eu fui requisitado a pagar por algo que deveria ser feito de graça e sem que eu sequer precisasse diligenciar.
É, Alice, você não está no país das maravilhas...
O que eu poderia fazer?
O cliente estava ansioso no aguardo do cumprimento da medida liminar. Minha remuneração, além do sinal pago quando da distribuição da ação, não incluía intimação da liminar. Eu já fazia jus ao pagamento de parte dos honorários pela mera concessão da medida. Minha ética, contudo, não me permitia simplesmente deixar que a parte ré não fosse intimada e conseqüentemente o autor não tivesse, materialmente, o amparo judicial. Essa mesma ética, no entanto, me impedia de pagar o que quer que fosse ao oficial.
Dilema.
Assim é a vida do advogado. Eu tenho que estar preparado para ela, afinal, agora eu não apenas serei um associado de um escritório. Eu serei sócio de um. Dilemas farão parte do meu cotidiano e saber superá-los será fundamental não para minha vida profissional, mas para minha vida. Como um todo.
Todas as questões relativas ao direito, agora, tem uma proporção muito maior. O direito não é apenas minha área de trabalho, é meu projeto de vida. Eu já deveria ter percebido isso há mais tempo, mas assim é a vida, às vezes aprendemos rápido, às vezes nossa percepção é mais lenta.
Sobre a conclusão da história, o que posso dizer é que tomei a decisão que me fez poder dormir em paz.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Pois é, o que importa é a sua consciência... siga em frente!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirA justiça é fogo.
ResponderExcluirManda-se um AR...
ResponderExcluir