Calma. Não estou desesperado. Quando decidi o título desse post vi que ele traria diversas possíveis interpretações - e a sua beleza é justamente essa. Lembrei da música dos Beatles, que viria bem a calhar em algumas situações da minha vida de advogado (nem tão) recém-formado.
Mas, apesar da bela metáfora que seria usar “Help”, esse título foi escolhido em razão de uma pessoa. De seu nome.
Socorro é como se chama uma humilde senhora que presta serviços a uma tia minha. Socorro trabalha duro como manicure e “se vira nos 30” como muitos brasileiros para pagar suas contas. Eventualmente atrasa alguns pagamentos, mas sempre os honra.
Minha tia já havia escutado vários lamentos de Socorro pelo fato da Companhia Telefônica ter cortado sua linha e não tê-la reativado mesmo após todos os pagamentos. Essa situação já durava mais de 6 meses e isso certamente havia prejudicado o trabalho dela, afinal, prestadora de serviços autônoma que era, dependia de ligação dos clientes para trabalhar.
Foi aí que minha tia teve a bondade de oferecer os meus serviços de graça, afinal o vagabundo aqui não estava trabalhando...
Durma com um barulho desses...
Não tenho nada contra fazer trabalhos pro bono, inclusive já contei aqui mesmo sobre um processo que fiz de graça. A questão é que obviamente não gostei de outra pessoa oferecer meus préstimos e muito menos da justificativa que escutei para fazer o trabalho.
Acabei aceitando o caso, mesmo sem receber nada, para fazer minha boa ação do ano.
Inexplicavelmente o juiz não concedeu a liminar, mesmo com a juntada de todos os comprovantes de pagamento, assim, não determinou que a linha fosse religada. Eu pensei em impetrar um mandado de segurança (não dava para agravar, pois a ação tramitava em juizado). Socorro, contudo, já havia providenciado uma nova linha e o provimento liminar não era mais urgente.
Toda vez que nos falávamos Socorro demonstrava todo seu ódio pela Telemar, que era “uma empresa abusiva, que pisava nos pobres e teria que dar-lhe uma grande indenização”.
Eu sempre a adverti que as indenizações não costumam ser tão consideráveis, mas a indignação de Socorro era tão grande que ela queria levar o processo até o fim só pelo prazer de ver a empresa condenada.
Pouco antes de audiência de conciliação eu avisei que possivelmente eles proporiam um acordo de no máximo R$ 1.000,00. Ela perguntou se era bom, demonstrando claramente que não estava satisfeita com a idéia.
Já dizia o poeta Jagger... You can’t always get what you want.
Isso vale pra ela e pra mim, afinal, não sou eu que vivo reclamando da Justiça não atender minhas expectativas?
Expliquei que poderia haver uma condenação maior, mas que era difícil algo muito acima desse valor, talvez dois mil...
Ela já sentou à mesa de espírito armado. Quando a preposta da Telemar fez a proposta de R$ 1.000,00 em crédito na linha telefônica ela prontamente negou, mesmo se lembrando da advertência que eu havia feito pouco antes, de que ainda que houvesse condenação maior, com todos os recursos possíveis, ela demoraria anos para ver a cor do dinheiro.
Conversando em mesa, especulei R$1.500,00 em crédito, valor este que a Telemar não rechaçou, mas foi rejeitado por Socorro.
Não havendo acordo, a contestação foi apresentada. Já me preparava para ir embora quando tive uma grata surpresa: o conciliador informou que ali a audiência era una!
“Vou chamar o juiz para sentenciar” disse ele.
A satisfação que tive foi enorme. Nem lembrava da última vez que tive uma sentença em mesa.
O juiz, ao narrar sua decisão fazia os olhos de Socorro brilharem. Quando ela o ouviu dizer que "a Telemar cometeu ato ilícito" e que "ocasionou danos morais à autora", Socorro claramente se emocionou.
A condenação de R$ 1.200,00 para ela foi um grande prêmio. Além disso, seria em dinheiro e não em crédito (mas com todos os recursos possíveis no meio do caminho).
Percebi que a única coisa que Socorro precisava era da assistência da Justiça. Queria ouvir que estava certa, que tinha sido maltratada, que merecia uma reparação. Mais que isso: queria ouvir que a Telemar estava condenada.
Ela se satisfez.
E eu, que peguei um trabalho inicialmente sem tanta boa vontade, acabei podendo ver um pouco de Justiça acontecendo. Mesmo sem consistir num resultado final (certamente haverá recurso) a cliente já se sentia plenamente satisfeita. Não era pelo dinheiro, era pelo desaforo.
Um pouco de esperança pra começar melhor o ano novo.
E como dizia o mesmo poeta que citei anteriormente:
You can’t always get what you want, but if you try, sometimes, you just might find, you get what you need.
Parece que achei o que precisava para começar o ano bem.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
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Realmente importante ter em mente o que se precisa e não necessariamente o que se quer... talvez essa seja a chave do sucesso...
ResponderExcluirSocorro é pra inspirar as pessoas que temem a ineficiencia da justiça.
ResponderExcluirPedro Henrique,
ResponderExcluirSou do Rio de Janeiro, tb sou formada em Direito, encontrei seu blog numa pesquisa no google, acho que coloquei na pesquisa "vida de advogado recem formado"... alguma coisa desse tipo, e encontrei seu blog.
Li todas as histórias, muitas morri de ri!
Não só o judiciário da Bahia é difícil, como o do Rio tb.
Enfim, quero apenas parabenizálo.
Não sei se vc vai chegar à ler este post, pois tem tempo que vc não entra por aqui.
Mas Parabéns pela forma detalhada e engraçada que vc escreve!
Boa sorte e sucesso!
Abraços,
Priscila.
Valeu, Priscila!
ExcluirHoje bateu nostalgia e resolve reler o blog e fiquei feliz de ver alguns comentários novos!
Obrgado pelos elogios e espero que as histórias tenham ajudado em algo nessa sua vida de recém-formada. S
Olá Pedro, tudo bem?
ResponderExcluirEncontrei seu blog, porém, percebi que a muito você não atualiza! O que houve nesse período de 2012/2013? Conte-nos.
Abraços
Fala, Anderson, tudo bem?
ExcluirTeve muita coisa nesse period, vou tentar arranjar tempo pra voltar a contar!