Na terça-feira anterior ao carnaval distribuí uma ação no Fórum. Não era nada muito urgente, mas o cliente estava ansioso e eu queria agilizar as coisas, por isso fiz com que o processo fosse imediatamente enviado à Vara sorteada.
Cheguei ao cartório da Vara e me dirigi à funcionária que estava sentada próxima ao balcão. Era uma mulher jovem, até bonita para os padrões dos servidores do Fórum.
“Bom dia!” Disse feliz (afinal, estávamos às vésperas do carnaval).
“Bom dia” Respondeu automaticamente.
“Chegou aqui um processo que acabou de ser distribuído... Eu queria que ele fosse autuado para que seja expedido o mandado citatório”
“Olhe, doutor, na verdade quem faz isso é Fulana, mas ela só fará isso na volta do carnaval!”.
“Poxa, mas não tem ninguém que possa fazer isso no lugar dela?” insisti.
“As coisas aqui já tão em ritmo de carnaval, pode reparar que não tem quase ninguém por aqui... Eu to aqui providenciando as publicações... Volte depois do carnaval que a gente resolve!” Falou parecendo ser sincera.
Bom, não é nada urgente, não há porque insistir e me indispor.
“Ok. Volto aqui depois do carnaval e procuro Fulana!”
“Combinado” Respondeu a simpática moça.
(...)
Aproveitei o carnaval, como já relatei. Na quinta-feira iria fazer minha malfadada viagem ao interior de Alagoas, contudo, pela manhã, achei tempo para ir ao Fórum diligenciar a autuação do processo.
“Bom dia.” Falei sem muita animação devido à iminente viagem que estava por vir.
“Bom dia” Respondeu a mesma simpática moça com quem conversei na semana anterior.
“Vim ver a autuação daquele processo...” Falei tentando lembrá-la da nossa conversa.
“Ah, sim... Pô, doutor, mas Fulana só vai fazer isso a partir de segunda-feira!”
“Poxa, mas não era depois do carnaval?” Respondi já em tom de cobrança.
“Era, mas acontece que as coisas estão ainda em ritmo de carnaval... O pessoal ainda nem começou a trabalhar direito” (eram 8h40 da manhã).
Eu tinha outras diligências para fazer naquela manhã e já estava bastante irritado com a viagem que faria. Resolvi não perder tempo buscando alguém que quisesse trabalhar naquela maldita Vara.
“Certo, então eu volto aqui na segunda e procuro por Fulana. Devo vir que horas?”
“Ela irá fazer as autuações às 14h”.
(...)
Segunda-feira. Retornei ao Fórum. Cheguei à Vara por volta das 15h20. Dessa vez era um senhor que fazia o atendimento do balcão.
“Boa tarde.” cumprimentei.
“Boa!” respondeu simpaticamente.
“Eu preciso falar com Fulana, por favor!” Disse, referindo-me à pessoa que faria a autuação do meu processo.
“Um minutinho que vou chamá-la, ela está lá dentro.” Falou apontado para os arquivos.
Sentei e comecei a ler alguns andamentos de processos que iria diligenciar naquela tarde. Estava estranhamente feliz de voltar a um Fórum urbano, no qual pude chegar sem fazer rally.
Mas alegria de advogado baiano dura pouco.
“Bom dia, está me procurando?”
A voz era familiar, mas o impacto nos meus ouvidos era tamaho que eu tentei negar a verdade. Levantei e encarei minha interlocutora.
“Você é Fulana?” Perguntei à mulher com quem já havia falado duas vezes sobre o processo que iria diligenciar.
“Sim.” Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Talvez devido ao meu "programa de índio" na semana passada, nem tentei respirar fundo e fui falando antes de pensar qualquer coisa.
“Mas você não me disse semana passada e retrasada que só quem poderia resolver meu problema era outra pessoa?” Disse em tom baixo, mas completamente enraivecido o que foi perceptível para uma advogada de mais idade, que se afastou de mim enquanto eu falava e gesticulava.
“Não. Na verdade eu disse que quem resolveria seu problema em outro dia era Fulana, mas eu nunca disse que eu não era Fulana.”
Ah, se eu tivesse com meu taco de beisebol...
“A senhora não tem vergonha, não? Tá me achando com cara de palhaço?” Falei baixo, tentando me conter, enquanto me esforçava inumanamente para não esmurrar o balcão ou a própria Fulana.
“O senhor está nervoso...”
“É claro que estou nervoso! Como você espera que eu fique diante de um negócio desses?”
“Olhe senhor, eu te disse que viesse às 14h... Inclusive, já são 15h40... Eu já autuei os processos que iria autuar hoje. Se quiser, deixe o número do seu processo aí que eu o autuo amanhã!”
“Como é que é?” Respondi incrédulo.
“É isso. Já não estou mais autuando hoje. Quer deixar o número?”.
O ódio era tamanho que eu me via realizando o “home run dos meus sonhos” ali mesmo. Ela merecia.
Que tipo de vagabundo fala de si mesmo em terceira pessoa para se livrar de trabalho?
“Eu quero falar com o juiz. Ele está?”
“Não, ele veio pela manhã...” Disse Fulana com cara de vitória.
“E o escrivão?”
“Está de licença... só volta semana que vem...” Disse ainda mais feliz ao ver que minhas opções estavam acabando.
“A essa altura a senhora já sabe o número do meu processo. E eu vou voltar aqui. Esteja certa.”
“Eu tenho cara de advinha pra saber o número do processo, por acaso?” Respondeu em tom de desdém.
“Prefiro não dizer as caras que eu acho que as pessoas têm... Mas a sua certamente não é de advinha.” Resmunguei.
“Como é?” Começou a se inflamar.
“Olhe, eu vou voltar aqui amanhã pela manhã e só saio depois que falar com o juiz. Espero que o processo esteja autuado. Se não estiver, espero que pelo menos ele não suma.”
“O que o senhor está querendo dizer?”
“Estou querendo dizer o que estou dizendo. Eu digo o que eu quero. Não invento terceira pessoa pra falar por mim.” Disse enquanto me dirigia à porta da Vara.
Fulana ainda falava alguma coisa enquanto eu saia, mas eu não prestava mais atenção. A raiva era tanta que sentia minha cabeça quente. Certamente eu estava vermelho de ódio.
Enquanto me dirigia ao elevador me perguntava o que era pior: viajar para onde o vento faz a curva e ir ao Fórum que fica no encontro do NADA com o LUGAR NENHUM ou vir trabalhar em minha cidade e ter que lidar com os distúrbios de personalidade dos servidores.
Não encontrei uma resposta.
Mas o fato é que, do jeito que a coisa vai, quem vai acabar com algum distúrbio de personalidade serei eu.
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Eu não acredito nem um pingo! Que história unbelievable!!!
ResponderExcluirIsso é mais que absurdo! Eu iria na corregedoria dar queixa dessa mulher! Não ia sair de lá com essa indignação no coração!
Corregedoria já! Aliás, no caso dessa mulher, é psiquiatra já mesmo! HAUauhauhuaHuaAUuh!
ResponderExcluirGabriela Catão
ResponderExcluirÉ por isso que massacres acontecem... kkkkkkkkk
Essa história foi mais uma das que me foram relatadas. Para sorte da mulher cara de pau, nao foi comigo que aconteceu.
ResponderExcluirEu nem quero pensar o que faria numa situação dessas. Sorte da servidora que sua vítima foi uma das pessoas mais "zen" que conheço - tanto que ainda me ligou pra contar a história dando risada!
"AH SE EU TIVESSE UM TACO DE BEISIBOL" KKKKKKKKK!
ResponderExcluirsua cara uma frase dessas! Mas deveria ter usado as maos mesmo.. que mulher pilantra! hauhau
beeeijos irmão, saudade. =) -camila
Adoooooooooooroooooooooooooo!!!! Muito booooommmmmmmm!!! :D
ResponderExcluirE no dia seguinte, estava autuado?
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