Na semana passada fui ao psicólogo. Fiquei um pouco reflexivo desde então.
Na verdade não fiquei muito satisfeito com a consulta. Para variar, voltei com mais perguntas do que quando fui. Respostas que seriam o bom, nada.
A pergunta que encerrou a sessão foi “porque eu teria feito direito, em primeiro lugar?”
Não consigo entender qual a relação entre o motivo da escolha de minha profissão e meu sonho de acertar pessoas com taco de beisebol... Mas o sujeito estudou anos pra se tornar psicólogo e deve saber o que está fazendo. Eu espero...
Enfim, nessa semana que me foi tomada para reflexão, percebi que a pergunta na verdade não deveria ser “porque eu fiz direito”, mas sim “porque eu quis ser advogado”. Diferentemente da maioria das pessoas que cursam direito hoje em dia, eu nunca me interessei por concursos, sempre quis ser advogado.
Na verdade, eu fui enganado. Enganado pela TV. Eu me considero um cinéfilo. Adoro filmes e séries em geral. Em específico, eu adoro séries jurídicas e filmes “de tribunal”.
Se bem me recordo o primeiro filme desse estilo que assisti foi “As duas faces de um crime” com Richard Gere e Edward Norton. Fantástico. “O advogado do diabo”, com Al Pacino e Keanu Reeves também é espetacular.
No campo das séries jurídicas, há um sem número. Posso citar de memória “Shark”, “Ally McBeal”, “Damages” e “Justiça sem limites”.
O que sempre me chamou atenção nessas obras foi a importância do advogado: um sujeito inteligente, capaz de convencer pessoas.
Eis alguns fatores que me encantaram na advocacia:
1. As discussões eram mais (ao meu ver) sobre questões de bom senso do que leis em específico;
2. Os processos eram fundamentalmente orais. Nada de 300 folhas de papel. O que valia era a boa oratória do advogado aliada ao seu conhecimento e carisma;
3. E as condenações? Sempre na casa dos milhares ou milhões de dólares! A função pedagógica da punição civil era uma coisa séria. Não bastava compensar a vítima. Havia uma lição para que os erros não fossem cometidos novamente prejudicando outros inocentes;
4. Os casos eram dinâmicos, rápidos. O advogado era apresentado ao problema, dali alguns dias tinha uma audiência com a outra parte, ou mesmo uma audiência judicial. Em qualquer circunstância o processo não parecia levar anos para ser finalizado; e
5. Outra coisa interessante é que as causas em geral – não só crimes dolosos contra a vida - tinham como juiz um júri popular. Ver os protagonistas conduzindo o raciocínio do júri, conquistando sua confiança e fazendo prevalecer o interesse do seu cliente – que, via de regra, era o mocinho – me fascinava.
Estava decido: eu queria ser advogado.
Infelizmente, os filmes eram americanos e eu moro no Brasil. Fui ludibriado pela dublagem que me fazia crer que só porque os personagens falavam minha língua viviam no mesmo lugar que eu.
Pobre criança inocente.
Não que eu ache o judiciário americano perfeito. Longe de mim. Mas essa discussão não vem ao caso.
O fato é que eu gostava da idéia de convencer pessoas. De discursar. De conseguir vencer. E por fim de ver a satisfação do meu cliente.
Na época nem pensava em receber os honorários...
Hoje, confronto aquele mundo que me inspirou ao meu mundo real: A Justiça brasileira, e, mais especificamente, a baiana.
Pensando nisso, só posso dar um riso amarelo e balançar a cabeça negativamente ao perceber como as coisas não são como eu sonhava...
(...)
Um caso chegou a mim recentemente. Uma senhora de pouco mais de setenta anos foi diagnosticada com câncer. Essa mulher, anos antes, havia feito um seguro de vida que lhe previa o pagamento de indenização no caso do evento “invalidez por doença”, o que era o caso - inclusive há atestados de órgãos oficiais que revelam a condição de incapaz dessa senhora.
Diante disso, ela busca – HÁ MESES – receber a indenização que tem direito.
Vejam bem, eu disse que uma senhora de seus setenta e poucos anos – COM CÂNCER – está tentando receber o que tem direito. Há meses. Obviamente, imagino que ela não tem muitos meses mais para exigir os seus direitos (embora, naturalmente, espere o contrário).
O fato é que a conduta abusiva das seguradoras é algo comum por aqui. Se eu vivesse no mundo dos filmes e das séries, iríamos propor a ação e além de receber a indenização a que faz jus contratualmente certamente a cliente receberia – RAPIDAMENTE - uma boa quantia a título de dano moral e em razão do caráter pedagógico que a punição deve ter.
Mas, aqui, no mundo real, eu vou dizer o que vai acontecer.
Provavelmente, iremos ganhar a causa.
Certamente haverá uma condenação por danos morais, além da indenização contratada.
Como aqui ainda não há uma boa aplicação do punitive damage, a condenação no processo não será tão elevada como seria no mundo dos filmes. Consequentemente, as seguradoras continuarão fazendo com diversas pessoas o que fizeram com essa senhora.
Ah, sim! Infelizmente, é possível, e até provável, que apenas os herdeiros da cliente recebam a indenização.
Essa é a triste realidade.
Mas foi ao ver tudo isso que eu pude compreender a relação da pergunta do psicólogo.
Apesar disso tudo, a essência do motivo que me fez ser advogado não foi a parte glamorosa da coisa – embora, naturalmente, esse tenha sido um grande plus, principalmente para conquistar minha atenção num primeiro momento.
O fato é: o que me importa é convencer alguém de algo, e com isso, conseguir fazer valer o direito do cliente.
(Percebo ainda a pouca importância que dou aos honorários, preciso melhorar isso...).
O que me tira do sério são aqueles que, em vez de cumprir seus papéis e fazer a engrenagem funcionar normalmente para que eu atinja meu objetivo, fazem corpo mole, ficam de má vontade ou são corruptos.
O motivo de minha raiva não é o mero contraste entre o meu trabalho duro com a postura sanguessuga de alguns. É a frustração. A percepção de que meu objetivo se distancia em razão de determinadas condutas.
Ok. Agora eu entendi o porquê.
(...)
Mas, por acaso, isso não é mais um motivo para querer agredi-los com meu taco de beisebol?
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
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Amei! O melhor post de todos! perfeito!
ResponderExcluirE não, não mais um motivo para bater com tacos, mas sim de saborear a vingança gelada de vê-los apesar dos pesares. Como diz Claudia, nada melhor do que fazê-los nos engolir! :P
Concordo com Dri q foi o melhor post de todos! A gente faz Direito por ideais, pelo amor à argumentação e consequentes convencimento e satisfação do cliente... e na prática vai se deparar com burocracia, corrupção e toneladas de papéis.
ResponderExcluir(Mas valorizar os honorários é importante - hauhauuahuauhuhuhauhuha)
=**
Olá Pedro (desculpe a intimidade, mas tenho um certo trauma do seu nome composto)!
ResponderExcluirEstou no último semestre de Direito da UFRN e já me vejo na mesma situação que vc: auxilío uma prima já formada numa ação de alimentos de menor impúbere e a cada dia que passa me frusto mais com a justiça brasileira.
Os juízes da vara de família passam por cima da lei, não concedem os alimentos provisórios mesmo com todos os requisitos constantes na lei, se vendem a parte que possui dinheiro e por aí vai.
Como você, já tive momentos de indignação e desespero, pensei em largar tudo e ir cursar moda (curso que muitos consideram fútil e não envolve tantos problemas, tão pessoais em nossas mãos, problemas que muitas vezes tomamos como nossos), mas eu respiro fundo e penso que se todos os entendedores(ou apaixonados, como eu) da arte do direito entregarem os pontos e largarem essa profissão tão bela eu não consigo mais vislumbrar nem a perspectiva que o nosso sistema judiciário apresente alguma melhora.
Por isso eu tenho raiva,soco uma parede ou vou ter uma boa conversa com os amigos da área num bar e volto pra casa revigorada e com mais gás (expressão muito natalense) para me aprofundar cada vez a mais no direito brasileiro e mostrar que os juízes ( e os seus assessores que são os reais "feitores" dos despachos e sentenças)sejam obrigados a cumprir o real significado da lei.
Gabriela Catão
Gabriela,
ResponderExcluirSei bem como vc se sente. Aqui na Bahia nos deparamos com esse tipo de coisa constantemente.
Mas, como vc, eu tb nao desisto facilmente. Me estresso basante, mas busco espairecer (aliás, esse blog é bem útil nesse sentido).
Tb já cogitei seguir outros rumos que não a advocacia, mas - felizmente ou não - ela é uma paixão. Então, continuo. E, no final das contas, as vitórias mais dificéis são sempre mais saborosas, não?
Além disso, gosto de crer que o Judiciário tende a melhorar com as nossa geração. POde ser ingenuidade, mas um pouco de fé não faz mal a ninguém!
Espero que no futuro não olhe para isso que escrevi e pense "nossa, como eu era besta"...
Sigamos na luta!
PS: como achou o blog?
Bom, dizem que estudante de direito é bixo besta e só aguenta um quem também o é...
ResponderExcluirO Blog foi indicação do meu "respectivo", ele adora sites e blogs relacionados a direito e achou a linguagem do seu interessante, com um ar "revoltado" e achou parecido comigo (sim, ele apanhou por causa dessa indicação).
E eu prefiro no futuro me considerar uma besta fervorosa do que um ser apático. ;)
(Gabriela Catão)
AMEI A FRASE: "E eu prefiro no futuro me considerar uma besta fervorosa do que um ser apático. "
ResponderExcluirConcordo!!!
Sou jornalista. Também me sinto assim.
ResponderExcluirBeijo